Catas Altas e o vinho

Por Vani Fonseca*

O ano de 2019 ficará marcado no Território Central de Minas Gerais, mais especificamente na região conhecida como Entre Serras da Piedade ao Caraça como um momento de consolidação das ações realizadas nos últimos anos pelas Associações de produtores de Catas Altas (APROVART), a Feira Sabores do Morro e a Prefeitura de Catas Altas, com objetivo de obter reconhecimento do fermentado de jabuticaba.

Com apoio do Santuário do Caraça, SENAC Minas, Universidade Federal de Viçosa (UFV) e EMATER-MG, foi implementado um conjunto de ações coordenadas, durante os últimos 5 anos, visando o aprimoramento do fermentado de jabuticaba, o aumento de produtividade, a melhoria técnica e estudos de harmonizações com a gastronomia local.

Neste ano, a tradicional “Festa de Vinho” mostrou a evolução deste produto e seu potencial junto à gastronomia local e ao turismo através do projeto de capacitação de produtores, chamado Harmonizando com Jabuticaba. Esta bebida tem história antiga na região, com início no século XVII, com a chegada dos padres portugueses. Eles trouxeram ao território as tradições do uso do vinho durante as celebrações religiosas e acompanhando as refeições. Esse fato aconteceu no final do primeiro ciclo aurífero, do ouro de aluvião, quando a população ficou em estado de pobreza absoluta.

Por iniciativa do Monsenhor Mendes, padre português, o cultivo da uva foi ensinado e praticado como forma de geração de renda para o território. No Século XIX, este vinho de Catas Altas recebeu um prêmio de qualidade na França e, em 1882, o vinho do Caraça, nesta época Seminário Maior, recebeu o título de melhor vinho branco do Brasil, que chegou a ser reconhecido e exportado para todo território brasileiro. Com o fechamento do Colégio do Caraça e a retomada da extração de minério de ferro, o cultivo das uvas foi extinto e a produção foi paralisada.

No entanto, os hábitos de tomar e produzir vinho já estavam inseridos na população local. Com a extinção da vinicultura, a jabuticaba, fruta nativa e abundante, naturalmente começa a substituir as uvas, o que resulta na produção do fermentado de jabuticaba. Por esse motivo, é chamado erroneamente de “vinho de Jabuticaba”, como forma de distinguir o fermentado de jabuticaba do vinho de uvas, já que, na garrafa, são semelhantes pela cor.

Hoje, através de análises organolépticas dos fermentados, já é possível compreender que o fermentado de jabuticaba tem características distintas do vinho, como paladar, aroma e cor. Apenas a técnica de produção é semelhante, embora também apresente grandes diferenças.

O reconhecimento das qualidades e condições organolépticas deste fermentado, atestado pelos estudos da Faculdade SENAC, evidencia a necessidade técnica da criação de um nome para a bebida, que a desvincule do vinho e dê a ela o lugar que merece: uma bebida típica da Região Entre Serras da Piedade ao Caraça, feita com a fruta mais brasileira que existe, abundante em Minas Gerais: a jabuticaba. O assunto já vem sendo discutido pelas associações de produtores e pelos habitantes do território.

O Sommelier mineiro Renato Costa e o mestrando em fermentados e instrutor de coquetelaria do Senac Minas, Maicon Rodrigues, concordam sobre o potencial econômico e gustativo da bebida. Hoje, já é encontrada em Catas Altas nas versões Suave, Semi Seco e Seco.

Considerando o potencial econômico do produto, podemos comparar o fermentado de jabuticaba ao Pomeau de Pêra e a Cidra de Maçã, que movimentam a região da Normandia Francesa. Lá, essas bebidas movimentam milhares de Euros e trazem ao território milhares de turistas. Se depender de Catas Altas e sua gente, o mesmo acontecerá por aqui.

*Vani Fonseca
Graduada em Ciências Econômicas, Especializada em História Econômica. Consultora Técnica de Pesquisas Gastronomia do Senac em Minas, onde e Gestora do Programa de desenvolvimento regional pela gastronomia: Primórdios da Cozinha Mineira, membro fundador da FGM.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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