Gente que alimenta gente: Doce Compadre Chico

Por *Nadiella Monteiro

O menino tinha ouvido falar que as abelhas oravam à noite enquanto produziam mel, no mato, na caatinga. Quis ver a catedral, quis ouvir por ele mesmo, procurou saber mais destes insetos sem ferrão que deram nome à sua cidade. Por isto, buscou a companhia dos mais velhos, gente da lida na roça, experiente: o menino perguntava e ouvia e andava tanto tempo ao lado destes homens que ganhou o apelido de Compadre.

Compadre Chico tinha um interesse genuíno pelo trabalho dos homens, pelos desafios da caatinga, lugar onde as barreiras eram uma constante na vida de cada morador. Ele sabia das dificuldades, mas não se deixava limitar: estava sempre buscando soluções e alternativas, criando o novo do velho, transformando sucata e inventando imensos currais com gado feito com os ossos encontrados, bois que puxavam carros de lata pela lama, cheios dos primeiros brotos do período chuvoso.

Vegetação da caatinga. Foto: Nadiella Monteiro.

Veja Também: Receita de Nutella de Baru

Perguntador, curioso, interessado em ouvir as histórias de quem podia contá-las, Francisco, nascido e criado no Povoado do Cabeço Preto de Chico Souza, município de Jandaíra, no Rio Grande do Norte, já possuía um terreiro de galinhas aos 12 anos, fruto de pequenos presentes que se reproduziam e eram trocados. Foi nesta época que propôs trocar duas boas galinhas reprodutoras por uma colmeia de abelha jandaíra.

Desde então, mesmo em meio à aridez natural deste ambiente, a busca de Francisco foi pelo modo doce de viver o lugar. A tristeza de perder os amigos que deviam se mudar para a cidade porque os pais sentiam dura demais a vida no povoado o fez tomar uma decisão contrária ao fluxo migratório: Francisco decidiu permanecer.

Uma rua do município de Jandaíra, no Rio Grande do Norte. Foto: Nadiella Monteiro.

Francisco decidiu permanecer e inventar meios de permitir aos outros tantos, seus amigos e irmãos, que pudessem também continuar naquela terra, no seu lugar, convivendo com o sertão, a caatinga, sua riqueza resistente e pouco óbvia, mas que rebrota e reverdece quase que milagrosamente depois das primeiras águas invernais. À opção pela produção de mel de abelhas nativas juntou-se o desejo de produzir
alimentos agroecológicos e, a eles, o sonho de reunir a juventude local e criar meios de fortalecimento e desenvolvimento do povoado.

Francisco, por decidir permanecer, saiu e foi estudar Pedagogia. Também saiu, por querer ficar, para contar sua história para outros jovens de outras comunidades rurais do mundo inteiro que se reuniram na Itália num encontro do movimento Slow Food. Lá, tão longe de casa, soube que era possível, sim, alterar as condições adversas através da união e da reunião do povo do lugar e de seu fortalecimento econômico por meio do sentimento de pertencimento e da valorização do produto da terra, com sua tradição, suas características peculiares, seu valor ambiental.

Voltando e permanecendo, o menino que antes juntava ossos encontrados para criar gado inventado, reuniu a juventude do Povoado do Cabeço e criou a Joca, Associação de Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço, responsável pela produção do mel de abelha jandaíra e pela geração de trabalho e renda em meio à convivência com o semiárido e à manutenção e enriquecimento da caatinga.

As abelhas são fundamentais para a vida da caatinga e as espécies caatingueiras imprescindíveis para que haja mel de abelha jandaíra, nesta vivência simbiótica e frutífera. Da mesma forma, Francisco e os outros
jovens da Joca convivem com o ambiente em que nasceram e cresceram com um olhar sábio e amoroso, atentos aos zumbidos nos ocos de pau, estas orações que produzem um néctar tão doce, a sua colheita.

Eles sabem que existir é muito mais do que subsistir e que a lavoura mais valiosa não está relacionada ao crescimento do PIB, mas ao incremento de vida, de sentido e relação, vida plena do que é bom, do que é limpo, do que é justo e do que é doce.

Foto: Nadiella Monteiro

Nadiella Monteiro 
Estudou Medicina Veterinária, mas logo cedo descobriu que gostava mais de gente e de planta. Trabalhando com os agricultores familiares e com a agroecologia, aprendeu que comer é ato político diário, fundamental e transformador de mundos e, por este motivo, acredita que é preciso conhecer quem nos alimenta.

Likes:
4 0
Views:
108
Article Categories:
Coluna