Os encantos gastronômicos de Gramado (RS)

Por Marina Simião

Quando comecei o curso de Turismo, lembro que todos os professores perguntavam qual foi o motivo para termos escolhido esta profissão. Lembro que praticamente todos nós, calouros naquele momento, de algum jeito, falamos coisas como: “conhecer lugares diferentes”, “viajar o mundo todo” e “trabalhar e viajar ao mesmo tempo”.

O que nós não sabíamos à época é que trabalhar com turismo não necessariamente significa viajar apenas para lugares que você gosta, e muito menos, que dará tempo de conhecer alguma atração durante o período de estadia. Mas com o tempo, e algumas experiências na bagagem, descobrimos meios de conseguir algumas brechas para ter contato com o local visitado, seja escolhendo uma rota interessante enquanto se desloca do hotel para o espaço de reunião ou evento, seja acordando um pouco mais cedo para andar pela cidade e, porque não, buscando aquele restaurante, padaria, mercado ou bar tradicional para provar a gastronomia local?

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Há algumas semanas fiz uma viagem a trabalho. O destino: Gramado! Lugar que sempre tive vontade de visitar, mas sempre me faltava oportunidade. No meu imaginário de turista, Gramado era sinônimo de romance, frio, hotéis e pousadas charmosos, cinema e, claro, vinho, fondue, chocolate e café colonial. Ficaria lá por apenas dois dias e meio. A programação era chegar à noite, no dia seguinte me dedicar a toda a programação técnica e, no terceiro dia, eu teria a manhã livre, com retorno agendado para o horário do almoço. Ou seja, na prática eu teria dois jantares, um almoço e dois cafés da manhã para tentar conhecer, pelo paladar, um pouco mais da cidade.

O primeiro jantar foi em um restaurante de comida italiana. Uma cantina pequena, super aconchegante, com decoração simples, serviço espetacular e uma comida realmente saborosa. Eu estava com alguns colegas de trabalho, entre eles um gaúcho, que contou um pouco sobre a presença italiana na região e como os imigrantes contribuíram para a formação cultural da Serra Gaúcha, especialmente no que diz respeito à gastronomia. Conversa realizada entre galetos, massas e vinho da região e, muito prazer, lá estava eu, sendo apresentada à Gramado.

O primeiro café da manhã e o almoço foram no local do evento e, confesso, optei por compensar um pouco os carboidratos da véspera e me satisfiz com salada e frango, mas fui surpreendida por um suco de uva integral que valeu o dia. Daqueles que deixam a boca roxa e que dão a sensação de que você acabou de colher a uva. Entre goles de suco e garfadas, as conversas técnicas do dia ficaram mais leves, mais animadas, e as energias renovadas para mais um período.

Evento encerrado e eu só pensava em fondue. Com mais alguns colegas, resolvemos caminhar um pouco por Gramado e escolher então algum lugar para comer e ver um pouco mais da cidade. Entre lojas de vinho, embutidos, artesanato e chocolates fui tendo contato com as pessoas de lá: desde a menina com sorriso de aparelho que sonhava em andar de avião, passando pela vendedora de chá que nos deu uma aula sobre chimarrão até o rapaz de cabelo arrepiado que me convenceu a comprar chocolate pra Deus, o mundo e mais alguém – e olha que nem sou tão fã de chocolate assim.

No final, fui voto vencido, não teve fondue. Mas teve muita gargalhada, bate papo, aquecedor pertinho e uma mesinha bem legal na calçada, com as cadeiras forradas com pele de carneiro para espantar o frio. Na volta para o hotel, o motorista do táxi reforçou que eu não podia deixar de tomar um café colonial. Me contou que, para ele, aquilo era sinônimo de infância. Seus pais recebiam, aos finais de semana, moradores de Porto Alegre que iam para a cidade tomar um super café da manhã, com toda a família, e ele acordava com o cheiro dos pães e bolos que a mãe e a avó faziam.

Sou quase obediente, muito curiosa e adoradora de café da manhã: ficou fácil seguir a dica dele. Entrei em uma das padarias que me indicaram e só o cheiro já me deu vontade de ficar lá. Não tomei o café colonial “oficial” porque era muita comida para uma pessoa, e o fato de estar sozinha não me faz sentir à vontade para justificar desperdício. Assim, consegui chegar em um ponto de equilíbrio: chocolate quente, chá quente, alguns pãezinhos, bolo e salada de frutas. Não sei se a família do motorista que me levou ainda serve café colonial mas, realmente, acho que eu era a única que estava sozinha. Ao meu redor, muitas famílias, de vários formatos mas, para todas, o momento era de começar o dia degustando tradição.

Vocês podem estar se perguntando por que detalhei tanto esta experiência. Mas resolvi contar isso porque, a todo momento, temos a oportunidade de ver uma cidade, um destino. E eu vi Gramado! A cidade e suas luzes, o vai e vem das pessoas e suas garrafas térmicas e cuias de chimarrão, o cheiro do chocolate quente e das “cucas” saindo do forno, a estátua do Kikito… Para quem viaja com a programação muito restrita, estes pequenos momentos fazem a diferença, uma vez que despertam ainda mais a vontade de retornar para conhecer o lugar com mais calma.

Para os gestores de destinos turísticos, organizadores de eventos e atividades empresariais, é preciso reconhecer que estas brechas são oportunidades para aguçar a vontade dos turistas de negócios e eventos de retornar em outra ocasião. Comigo a estratégia funcionou, afinal de contas, terei que retornar de qualquer jeito à Gramado, pois ainda não provei o fondue.



(Foto: Acervo da secretaria de desenvolvimento econômico e turismo do estado do Rio Grande do Sul)

Brincadeiras à parte, viagens à trabalho são, em geral, bastante corridas, demandam um volume de horas de trabalho ainda maior, quebram a rotina, são cansativas, mas, com boa vontade, é possível aproveitar esses momentos para ter uma experiência nova. Por isso, por todos os lugares que passo, procuro estar atenta a estas pequenas possibilidades, afinal de contas, é melhor sempre observar a metade cheia do copo, ou melhor, do prato.

(Fotos: Acervo da secretaria de desenvolvimento econômico e turismo do estado do Rio Grande do Sul )

Marina Simião
Turismóloga, mestre em economia criativa, gestão cultural e desenvolvimento, atua em projetos de gastronomia, economia criativa, turismo e cultura. Criadora da Metodologia Patchwork, membro da Frente da Gastronomia Mineira, do Institute of Gastronomy, Culture, Art and Tourism e do Instituto Movimento pela Felicidade. Mas sua melhor função é de “Dinda” do Nando, Naná, Pedro, João, Elis, Tomás e Duda. Mora em BH,
tem alma viajante e o coração espalhado pelo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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