Sobre crianças, férias e comidinhas

Por Marina Simião

Ahhhh, as férias! Aquele período do ano tão aguardado! Na minha infância, férias eram sinônimo de casa de vó, desenho animado, Almanacão da Turma da Mônica, farra com os primos, era tempo de doce de figo da Tia Alair e mingau de fubá da Vó Lia. Eu era um pouco chata pra comer e costumava brincar que não gostava de “nada que nadava”, coisas de criança, vai entender.

Hoje em dia, vejo a preocupação de muitos pais com a alimentação que os filhos terão durante o período de viagem, sendo esta às vezes um aspecto importante sobre o destino a ser escolhido. Entre medos de infecção alimentar, formação do paladar, receios sobre o gosto ou não, esquece-se da surpresa, da descoberta, da curiosidade que pode ser despertada. Com isso, vem uma avalanche de “pratos infantis” sempre iguais: arroz, feijão, carne e batata frita; estrogonofe, arroz e batata palha, macarrão com carne moída e, com isso, uma padronização dos pratos infantis por todo lugar.

Veja Também: Gente que alimenta gente: Comida de vó – Biscoitos “escrevidos”

Confesso que me incomoda um pouco a ideia de “prato infantil” – a não ser pela quantidade, que realmente precisa ser menor, mas acredito que não seja interessante restringir as opções infantis. Não digo isso em virtude de características nutricionais, longe de mim, não tenho formação e muito menos competência para tal, digo isso pensando no leque de experiências e descobertas que os pequenos estão perdendo quando parte-se do pressuposto de que as crianças não vão gostar de pratos, receitas e ingredientes tradicionais, diferentes daqueles que estão acostumados em sua rotina diária.

O ato de comer é um ato cultural. A comida é uma expressão das práticas, conhecimentos, hábitos e do cotidiano dos povos. As ofertas gastronômicas contam muito sobre a geografia dos territórios, seu clima, sua cultura, sua gente. A viagem é uma forma de praticar o olhar para o diferente e, quanto mais conhecemos o diferente, mais fácil fica desenvolver a empatia, tolerância e o respeito.

Incentivar uma criança a provar diferentes sabores, e respeitar sua reação positiva ou não, é uma forma de mostrar as diferentes culturas, lugares, rotinas e hábitos; é mostrar a ela que existem outras realidades diferentes da sua. Acredito que entender essas diferenças e vivenciá-las, mesmo que pelo curto período de férias, são maneiras de incentivar a tolerância, o respeito a empatia entre os indivíduos, e também de criar memórias afetivas para toda a vida.

Por isso, para as próximas férias, além de apresentar lugares para filhos, afilhados e sobrinhos, incluam nas atividades um olhar para os produtos locais. Façam da hora da refeição um momento também de experiência, incentivem a descoberta, proponham-se a aventurar-se com os pequenos pelo paladar, aromas, texturas locais. No mínimo, boas histórias e lembranças serão elaboradas e estaremos contribuindo com a formação de crianças que se tornarão adultos muito mais felizes, empáticos e melhores para o mundo.

Nas fotos, pelo olhar da mamãe Paula, Joca em suas aventuras pela praia, onde visitou o Projeto Tamar, comeu milho e caranguejo.

Marina Simião 
Turismóloga, mestre em economia criativa, gestão cultural e desenvolvimento, atua em projetos de gastronomia, economia criativa, turismo e cultura. Criadora da Metodologia Patchwork, membro da Frente da Gastronomia Mineira, do Institute of Gastronomy, Culture, Art and Tourism e do Instituto Movimento pela Felicidade. Mas sua melhor função é ser “Dinda” do Nando, Naná, Pedro, João, Elis, Tomás e Duda. Mora em BH, tem alma viajante e o coração espalhado pelo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Likes:
1 0
Views:
680
Article Categories:
Coluna