Os ipês colorem as ruas e os pratos

Por Lucas Mourão

Rosa, roxo, amarelo, branco e até mesmo verde… Essas são as variadas cores que as flores de ipês podem apresentar, e que temos o privilégio de ver pelas ruas de Belo Horizonte, e de outras cidades do Sudeste, nessa época de agora no Inverno.

Muitas vezes só começamos a perceber a existência dessas grandes árvores e arbustos quando todas as suas folhas caem e só ficam as lindas e perfumadas flores. Também conhecido pelos nomes populares de caroba, pau d’arco, caraíba, piúva e lapacho, os ipês são aproximadamente 40 espécies de árvores diferentes (principalmente dos gêneros Handroanthus e Tabebuia) que existem no Brasil, de Norte a Sul, em todos os tipos de vegetação. Também são presentes em outros países da América do Sul e Central, sendo inclusive símbolo nacional do Paraguai, El Salvador e Venezuela.

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Na capital mineira, de acordo com o Inventário de Árvores da Prefeitura, são cerca de 27.000 ipês de todas as cores pela cidade, o que corresponde a 9% do total de árvores de BH! Não é a toa que a árvore é um dos principais símbolos da cidade e do país, ajudando a colorir o cinza monótono do concreto que predomina nas cidades.

Ipê Rosa (Foto: Lucas Mourão)

O que talvez seja pouco sabido pelos habitantes belorizontinos, e de outras grandes cidades brasileiras, é que as flores, cascas e folhas de alguns ipês têm usos medicinais e alimentícios!

Desde antes da chegada dos portugueses em solo brasileiro, os indígenas já usavam a casca e folhas do ipê como remédio, hoje conhecido como anti-inflamatório, anti sífilis, contra úlceras, inflamações da pele e mucosas e contra gripes e resfriados, tanto na forma de xarope, quanto de decocto, que é a infusão da casca após fervura. Não é a toa que na região do Mato Grosso as árvores de ipê são conhecidas como paratudo!

Sua madeira também é muito apreciada desde o tempo colonial, servindo para fazer desde carros de boi até assoalhos de casas, e hoje é uma das mais caras no mercado devido à proibição do corte de ipês para fins madeireiros.

Além do uso medicinal e madeireiro, as flores dos ipês branco, amarelo e roxo tem indicação de alimentícias pelo livro de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) do professor de Botânica e Agroecologia Valdely Kinupp. Suas aplicações culinárias podem ser em decoração de pratos, em saladas, refogadas, salteadas, empanadas, ou até onde for a sua imaginação! O aroma é perfumado e o sabor também, com um toque floral levemente doce e amargo (que lembra almeirão), sendo que algumas espécies são mais amargas que outras. A madeira de ipê branco também tem um uso peculiar na destilaria sendo usada no tonel para envelhecer uma cachaça mineira de Comercinho, chamada Contra Veneno.

Nas experiências da Jaca Verde já fizemos alguns testes com as flores de ipê branco e amarelo, como refogado, em farofas, saladas e como essência para aromatizar bolos e doces. Experiências muito felizes, saborosas e coloridas!

Fica o convite aos leitores para apreciarem, na próxima vez que virem flores de ipê, a sua beleza não apenas com os olhos, mas também com a boca!

Lucas Mourão 
Educador e paisagista. Formado em Relações Econômicas Internacionais, se encantou com a Agroecologia em 2015, e desde então trabalha com o tema através de cursos, oficinas e consultoria direcionadas ao conhecimento e uso das plantas alimentícias não convencionais (PANC) na alimentação e nos jardins. É diretor e idealizador da Jaca Verde Panc, por meio da qual trabalha a agroecologia e biodiversidade através da educação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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