Gente que alimenta gente: O povo do milho

Por Nadiella Monteiro

Os milhos são muitos, como Minas. E mais.

Quando cheguei à Gonçalves naquele novembro brumoso de 2016 não imaginava encontrar tantas cores numa espiga. Milhos coloridos eram os peruanos, ou mexicanos, todos estrangeiros e distantes, perdidos no tempo e na máquina homogeneizadora do agronegócio. Perdidos por aí, mas achados pela Virgínia que, em princípio interessada na palha colorida para o seu artesanato, descobriu um tesouro guardado pelos agricultores naquele pedaço da Mantiqueira.

Virgínia trouxe, de volta ao presente, e de presente, o milho crioulo branco tão pleno de passado para a família da Mariana. Foi na cozinha da sua casa que comecei a ouvir as histórias sobre o milho, sentindo o cheiro do João Deitado assando, enrolado em folha de bananeira e envolvido nos perfumadíssimos ramos de funcho: Mariana contava, com olhos marejados, das lembranças de seu avô e de seu pai, plantando e colhendo o milho branco, com o que faziam canjica e alimentavam a grande família.

João Deitado (Foto: Nadiella Monteiro)

Ela não é a única que se emociona ao se lembrar dos milhos antigos, de quando era uma criança de 4 ou 5 anos. Numa roda de agricultores locais, espigas de várias cores passando de mão em mão vão resgatando memórias e inspirando histórias e, por diversas vezes, embargando a voz daquele que as conta. Olho marejado e voz embargada também, de repente me percebi chorando por causa de milho! Mas o que foi aquilo? O que de tão velho e atávico me atingiu a ponto de me emocionar com uns poucos grãos coloridos?

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Fubá Branco: O sabor delicado do milho

Talvez Michael Pollan, autor e ativista da alimentação, possa me ajudar a entender esta comoção em torno da gramínea. Em seu livro O Dilema do Onívoro, Pollan afirma que nós, americanos – sim, nós, os nativos das Américas – somos o Povo do Milho, sendo possível mapear o carbono C4, especialmente capturado pela planta do milho na fotossíntese, constituindo a maioria das moléculas do nosso corpo. Ainda que o trigo, trazido pelos europeus, tenha se espalhado pelos campos e pelas mesas brasileiras, e a mandioca, da mesma forma que o milho, já estivesse por aqui sendo domesticada e cultivada pelos indígenas, acredito que podemos – reforçadamente nós, os americanos das Minas e das Gerais – nos reconhecer como o Povo do Milho.

Milho crioulo em Capim Branco (MG) (Foto: Nadiella Monteiro)

Afinal de contas, angu, canjiquinha e bolo de fubá, mesmo sem cautela, não fazem mal a ninguém.

Sem contar a pipoca, que me fez lembrar uma destas histórias tão gostosas como só podem ser as histórias que incluem avó e comida de vó: Dona Dita, sogra da Mariana, era uma guardiã de um milho de pipoca azul. Azul e pequeno. Tão pequeno que ela conseguia colher apenas um quilo de pipoca por ano e estourava todos os grãos especialmente para seus sortudos netos.
Pelas notícias de lá, soube que o milho azul se perdeu – uma característica do milho é a imensa possibilidade de cruzamento, por meio de insetos e pelo vento, permitindo a mistura e a perda de diversidade quando variedades diferentes são plantadas próximas ou ao mesmo tempo – mas o milho branco segue sendo cultivado, resistindo. Fiquei triste com o desaparecimento do milho azul. Será que alguma espiga resta protegida por alguém e poderemos um dia ver de perto esta beleza ou só pelas fotografias?

O milho azul da Dona Dita (Foto: Nadiella Monteiro)

Perdeu-se o azul, mas o preto foi achado e está sendo cultivado e multiplicado logo ali em Capim Branco, pelo Lucas. O preto e o vermelho, exuberantemente milho. E lá estava eu de novo, comendo bolo de fubá crioulo, falando e me emocionando com os milhos, suas cores, suas histórias de resistência, de vida e de possibilidades. Numa mesa farta, manhã fria sob céu claro invernal, ouvi sobre as planos e sonhos de campos de cultivo e multiplicação de sementes crioulas, amarelas, pretas, vermelhas.

Trouxe para casa minha porção de pipoca preta, incrível invenção da natureza, este fast food do bem. Fiz uma polenta deliciosa com o fubá amarelo e, junto com a Anna, uma broa de milho crioulo vermelho usando a receita antiga, escrita à mão em caderneta amarelada, da Dona Fé, sua mãe.

Broa de fubá vermelho (Foto: Nadiella Monteiro)

Milhos e humanos se desenvolveram juntos, um dependendo do outro nos últimos 9 mil anos, numa simbiose antes tão colorida quanto saborosa, rica e nutritiva. Se somos o que comemos, somos milho. E se posso escolher quem serei, não serei transgênica! Eu escolho ser resistência crioula, diversa e colorida, antiga e forte, carregada de histórias de vida em torno da mesa, de plantio de vô e pipoca de vó, de broa de mãe e colheita de pai, plena de passado e de futuro.

(Foto de Capa: Nadiella Monteiro)

Nadiella Monteiro
Estudou Medicina Veterinária, mas logo cedo descobriu que gostava mais de gente e de planta. Trabalhando com os agricultores familiares e com a agroecologia, aprendeu que comer é ato político diário, fundamental e transformador de mundos e, por este motivo, acredita que é preciso conhecer quem nos alimenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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