Paixão pela cozinha: o que aprendi com a minha avó

Se você também é um apaixonado pelas cozinhas, viaje nesse emocionante e delicioso texto da nossa colaboradora Nadiella Monteiro, e descubra nos detalhes, onde sua própria história se assemelha à dela, neste contexto de lembranças e ensinamentos de vó.

Se você também é um apaixonado pelas cozinhas, viaje nesse emocionante e delicioso texto da nossa colaboradora Nadiella Monteiro, e descubra nos detalhes, onde sua própria história se assemelha à dela, neste contexto de lembranças e ensinamentos de vó.

Por Nadiella Monteiro*

Querida vovó, que saudade!!

Faz tanto tempo que a gente não conversa, que não te vejo, que não conto coisas e ouço histórias! Quase vinte anos sem você aqui e segue sendo tão forte a sua presença!

Ela bebia café aqui…

Estou escrevendo pra te contar que resolvi aprender a cozinhar. Sei que você vai fazer uma cara de espanto: que óbvio, cozinhar. Mas a verdade é que a mamãe nunca curtiu muito a cozinha e quando eu era criança e interessada em fazer bolos e doces ela nem deixava eu chegar perto. Depois, tanto tempo morando com a tia que também não tinha interesse em cozinhar, que fazer uma salada já era muito pra mim.

O interessante, vó, é que tenho ótimas memórias nossas, eu ralando aquele queijo com o melhor sabor do mundo do Serro pra você fazer pudim. Pudim de queijo. Acredita que eu quis fazer também e nenhuma das suas filhas tinha a receita? Ne-nhu-ma. Nove filhas e zero receita. Mas descobri que a sua nora preferida tinha, e me deu, e eu fiz um delicioso pudim de queijo com o saborzinho salgado no fundo, do queijo curado ralado.

Ah, eu também batia as claras em neve, era um trabalho duro, doía as mãos, eu me cansava e achava que jamais viraria neve. Mas hoje sei que tudo isto o que cozinhamos juntas – haha, olha eu me achando! – foi tão importante a ponto de permanecer vivo na memória. Uma memória, eu sei, que meus irmãos, os dois meninos, não possuem. Aquele nosso tempo na cozinha de assoalho de madeira era nosso, seu e meu, das mulheres.

Uma coisa que eu descobri, procurando pelas suas receitas e observando as minhas tias, é que nenhuma delas tem interesse em cozinhar. Nenhuma delas faz qualquer prato extraordinário, uma receita especial, um algo mais além do feijão com arroz do dia a dia. Também percebi que era um orgulho pra elas dizerem: “pra que fazer, se posso comprar pronto?”. Mamãe nunca, nunquinha que eu saiba, fez um pão de queijo na vida. Nunca! Ninguém faz brevidade, vó! Ninguém faz aquela sua fatia enrolada com canela! Nem caipirinha, que absurdo!

Comecei a investigar, perguntar, fui tentar entender o que havia nesta família tão grande, nove mulheres e ninguém aprendeu a cozinhar uma comidinha de vó. Também ninguém sabe fazer nenhum daqueles trabalhos bonitos com as mãos, crochê, tricô, bordado. Nada, nem um ponto em cruz. Nada de costura. Nenhum artesanato. Nenhuma arte.

Vó, o que foi que aconteceu?

Daí me contaram que a vida na fazenda era dura, de muita obrigação logo cedo, criança de 8 ou 9 anos tendo que cozinhar imensas panelas para alimentar os empregados e os porcos. A cozinha era uma obrigação, um fardo, difícil, ruim. Consigo entender que todas elas, sem exceção, relacionam cozinha com trabalho pesado, que pode e deve ser evitado. Posso entender as lasanhas congeladas da tia e ela preferir pipoca de micro-ondas ao milho preto crioulo-orgânico-lindo que eu ofereci e ela recusou.

Mas olha, vó, quero fazer diferente!

Eu sei que a gente vive de ação e reação, principalmente se não pensamos muito sobre as coisas. Porque, por exemplo, cozinhar é algo tão bonito, esta transformação de produto da terra em alimento, com água, no fogo, temperos, nossas mãos. Aquela cebolinha fresca e cheirosa da horta que plantamos. Tudo isto para nutrir nossos corpos e as pessoas que amamos. Como poderia ser um fardo? Como optar por comida pronta cheia de qualquer coisa que não se sabe o que é, que ninguém em sã consciência teria na despensa?

Bom, acho que uma grande questão foi terem atribuído este trabalho às mulheres e somente a elas. Os homens, lembro bem dos nossos encontros de família, estavam sempre reunidos na varanda conversando seus assuntos importantes enquanto a mulherada lavava, picava, cozinhava, e lavava outra vez. E outra vez, e outra vez, e mais outra vez nos dias seguintes, porque ninguém se cansa de comer.

Adorava esses pratinhos…

As mulheres na pia e no tanque. Os homens na varanda.

Mas, olha vó, vou te contar. Coitados. Aqueles seus filhos que se separaram e não se casaram novamente estão bem mal cuidados, vivendo mal, casa toda pra limpar, uma comida bem mais-ou-menos e olhe lá. Sinto um pouco de pena porque são homens já velhos que parecem crianças desamparadas. Não foi muito boa a ideia de ensinar às mulheres a servir aos homens, não. Eles cresceram imaturos, dependentes, sem autonomia. Não estão conseguindo se virar muito bem, sinto te dizer…

Eu fico pensando que a gente ainda precisa caminhar muito como família, como sociedade, como humanidade. A verdade é que as mulheres conseguiram ocupar espaços de criação e de construção deste trabalho fora do lar que é reconhecido e remunerado, mas ainda seguem sendo as protagonistas do cuidado com a casa. Mudamos um pouco, ufa. Mas não tudo o que precisamos pra viver melhor.

‘Tou pensando aqui que, por exemplo, adoro lavar roupas. Tudo bem que eu comprei uma super mega máquina de lavar, tão linda que quero sentar no chão e olhar as roupas a girar. Acho uma delícia o cheiro bom de roupa limpa que invade a casa, acho linda a imagem das roupas no varal. Quero usar aquele cubinho azul de anil como você, lembra? ‘Tou pensando que cuidar da casa, fazer comida, lavar roupas, dar faxina e organizar funcionam, pra mim, como um autocuidado. E cuidado para com os meus queridos, também. Fico feliz de cozinhar para os outros, cozinhar para o homem que eu amo e que também aprende as artes da cozinha, mistura temperos, descobre sabores. Tudo isto é bom, o cuidado é bom, arrumar a casa é um pouco arrumar a vida. O lar é o lugar quentinho onde somos e nos fazemos ser, não é? Então, acho, estas tarefas todas eram pra ser boas, nenhum peso pra ninguém, nem fardo, nem trauma. Amor e prazer, lavar os pratos, recolher as meias, estender as roupas cheirosas. Usar de novo cada peça como se fosse nova, alma também sendo renovada.

Ah, vó. Este mundo. Sei lá.

O que pesa, agora eu vejo bem claro, é não saber dividir. Não colaborar, não fazer junto. Pesa o demérito da condição ‘do lar’, como se o lar fosse um lugar ruim. Não era pra ser o melhor lugar do mundo, vó? E é! Aqui, na minha casa colorida e cheia de plantinhas, é. Queria que você visse como está bonita e ensolarada nesta tarde de primavera.

Acho que eu entendi melhor, sabe? Casa é lugar de conforto e prazer. É p’ra ser. A gente cuida melhor do que nos traz bem-estar. É simples. E a casa é de quem mora, de quem vive nela. Talvez, por este motivo, esta coisa brasileira classista imperial de ter empregada (sempre uma mulher!) fazendo tudo, desde a cama até a comida, nunca me interessou muito. Desejo ter tempo e disposição para cuidar da minha casa junto com todos com quem divido o lar e que isto seja um prazer comum.

Sim, eu sei que é cansativo também. Poeira é uma eternidade e a louça se multiplica de uma forma misteriosa na pia. Eu deixo lá, muitas vezes, as pilhas de pratos e talheres. Está tudo bem assim. Me permito ler um livro, ver um filme, andar à toa e deixar a casa pra ser cuidada depois, com tempo. Tem até bagunça que acho bonita!

Eu sei, porque aprendi no fundo, que a casa mais importante sou eu mesma. Aqui dentro também tem louça pra lavar, roupa pra estender, o lixo para por pra fora. Às vezes eu sou um armário bagunçado, outras vezes uma estante arrumadíssima de livros interessantes. E tem hora que largo pra lá a vassoura e decido pendurar um quadro novo na parede…

É isto, vó. Bom falar com você e poder me ouvir.

Um beijo, com amor e saudade,

da sua neta preferida – entretanto, entre tantos!

Nadiella

P.s.: ainda não sei como fazer canjiquinha com costelinha, me ensina? E frango com quiabo? O que é araruta, onde acho pra comprar?

Agora eu sei o que é araruta…

P.s.²: acredita que ninguém até hoje sabe cortar couve fininha como você?

Fotos: Nadiella Monteiro

*Nadiella Monteiro é Colaboradora do Territórios Gastronômicos – Coluna Gente que alimenta gente.
Estudou Medicina Veterinária, mas logo cedo descobriu que gostava mais de gente e de planta. Trabalhando com os agricultores familiares e com a agroecologia, aprendeu que comer é ato político diário, fundamental e transformador de mundos e, por este motivo, acredita que é preciso conhecer quem nos alimenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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