Chefs e admiradores lamentam a morte da agrônoma pioneira nos estudos da agroecologia no Brasil

Pioneira no estudo da agroecologia no Brasil, a engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi morreu nesse fim de semana. Ela se dedicou ao estudo do manejo ecológico do solo durante 70 anos e deixou um grande legado.

Pioneira no estudo da agroecologia no Brasil, a engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi morreu nesse fim de semana. Ela se dedicou ao estudo do manejo ecológico do solo durante 70 anos e deixou um grande legado.

Por Isabel de Andrade*

Morreu nesse domingo, dia 05 de janeiro, a engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi, referência mundial em agroecologia. Vários admiradores lamentaram a morte da engenheira, principalmente pessoas que entendem a importância do respeito à terra e os danos provocados pelo uso de agrotóxico. Entre elas, a chef de cozinha Bel Coelho, proprietária do Clandestino Restaurante, em São Paulo, que é uma defensora da sustentabilidade e da agroecologia na cadeia do alimento.

Chef Bel Coelho fez uma homenagem à engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi ( Foto: reprodução Instagram)

A chef Bel Coelho replicou em sua rede social o texto publicado no Facebook da engenheira agrônoma. Confira.

“Um jatobá que tomba, centenário

Nossa querida Ana Maria Primavesi faleceu hoje, aos 99 anos de idade. Quase um século de vida, cerca de 80 anos dedicados à ciência no e do campo. Descansa uma mente notável, uma mulher de força incomum e um ser humano raro.

Afastada de suas atividades desde que passou a morar em São Paulo com a filha Carin, Ana recolheu-se. Quase centenária, era uma alma jovem num corpo envelhecido que, mesmo se tivesse uma vitalidade para mais 200 anos, não acompanharia uma mente como a dela.

Annemarie Baronesa Conrad, seu nome de solteira, desde pequena apaixonou-se pela natureza, inspirada pelo pai. Naturalmente entrou para a faculdade de agronomia, mesmo Hitler tentando fazer com que as “cabeças pensantes” desistissem de estudar. Ela não só era uma das raras mulheres na faculdade como também aquela que destacou-se por seu talento natural em compreender o invisível: a vida microscópica contida nos solos.

Nestes 99 anos de vida, enfrentou todas as perdas que uma pessoa pode sofrer: irmãos, primos e tios na Segunda Guerra. Posteriormente, pai, mãe, marido. E seu caçula Arturzinho, a maior das chagas, que é perder um filho. Sua morte hoje, causada por problemas relacionados ao coração, encerra uma vida de lutas em vários âmbitos, o principal deles na defesa de uma agricultura ecológica, ou Agroecologia, termo que surge a partir de seus estudos e ensinamentos. Não parece ser à toa que esse coração, que aguentou tantas emoções (boas e ruins) agora precise descansar.

Nosso jatobá sagrado, cuja seiva alimentou saberes e por sob a copa nos abrigamos no acolhimento de compreendermos de onde viemos e para onde vamos, tomba, quase centenário. Ele abre uma clareira imensa que proporcionará ao sol debruçar-se sobre uma nova etapa, a da perpetuação da vida. E dos saberes que ela disseminou.

Antes de tombar, nosso jatobá sagrado lançou tantas sementes, mas tantas, que agora o mundo está repleto de mudas vigorosas, prontas a enfrentar as barreiras que a impediriam de crescer. Essas mudas somos todos nós, cada um que a amou em vida, cada um a seu modo.

Nossa gratidão pelo legado único que nos deixa essa árvore frondosa, cuja luta pelo amor à natureza prevaleceu. A luta passa a ser nossa daqui em diante, uma luta pela vida do solo, por uma agricultura respeitosa, por uma educação que se volte mais ao campo e suas múltiplas relações.”

A engenheira agrônoma se dedicou à agroecologia durante 70 anos ( Foto: reprodução Instagram)

Ana Maria morreu em decorrência de problemas cardíacos. O velório e enterro do corpo foram em São Paulo. Ela faria 100 anos em outubro. Grande pesquisadora das técnicas de manejo ecológico do solo, a engenheira agrônoma foi responsável por muitos avanços nos estudos sobre o tema. Ela foi fundadora da Associação da Agricultora Orgânica (AOO) e lecionou na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde contribuiu para a criação do primeiro curso de pós-graduação em agricultura orgânica.

Ana Maria Primavesi nasceu na Áustria e chegou ao Brasil na década de 1950. A história e a trajetória profissional dela estão na biografia “Ana Maria Primavesi – Histórias de Vida e Agroecologia”, escrita pela geógrafa e professora Virgínia Mendonça Knabben. A engenheira publicou vários livros. Entre eles: “A Convenção dos Ventos – Agroecologia em contos”, “Manual do Solo Vivo” e “Manual Ecológico de Pragas e Doenças”. A bibliografia e a biografia desse “jatobá” centenário podem ser lidas no site anamariaprimavesi.com.br, onde a engenheira deixou essa mensagem sobre o trabalho que desenvolveu ao longo de mais de 70 anos.

“Ficamos cientes de que onde a técnica se choca com as leis naturais, a natureza é que prevalece e domina. Devemos, portanto, reconhecer e aceitar esses limites, fazendo o máximo possível em favor de nossa terra.

É bela a agricultura e a amamos mais ainda quanto mais vamos conhecendo a natureza. Acabamos com a ideia de que a terra é apenas fábrica de alimentos. A terra não é fábrica e não produz ilimitadamente. Amemos nossa terra e procuremos saber o que ela é capaz de produzir quando a tratamos carinhosamente. Tudo corre melhor quando feito com amor!

Peguemos nossa pá, perguntemos a nossa terra o que lhe está faltando e tratemo-la depois convenientemente dentro dos limites que a natureza nos impõe, e a antiga exuberância voltará aos nossos campos e a prosperidade aos nossos lares.”

Ana Maria Primavesi

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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