AÇÚCAR – É como um abraço…

Nesta coluna, a chef Mariana Correa divide seus momentos de isolamento e angústia, e dá umas doces dicas de como levantou seu astral ao abraçar os amigos à distância.

Nesta coluna, a chef Mariana Correa divide seus momentos de isolamento e angústia, e dá umas doces dicas de como levantou seu astral ao abraçar os amigos à distância.

Por: Mariana Correa*

“Todo mundo tem fome. Se não é de feijão e farinha, é de amor.” (Criolo)

Quanto vale um abraço? Nesses dias de isolamento a cotação está alta. O sentimento de perda de controle tomou conta de mim, me paralisou. Sei que muitos estão assim também, em maior ou menor nível. Tem gente que já arregaçou as mangas e bola pra frente, tem gente ainda decidindo o que fazer e bolando seus planos, tem gente ainda perdida no turbilhão de sentimentos e aflições… estava nesses últimos, infelizmente.

Não quero aqui chorar minhas pitangas, cada um sabe o que está passando nesse momento e não está fácil pra ninguém. Mas sou uma pessoa que precisa de um certo controle da situação, uma perspectiva, algum tipo de definição, mas aí vem a realidade e diz “amada?”. Pronto, caí num espiral de ansiedade e desespero silencioso… Fiquei mais recolhida, mais ausente das redes sociais (principalmente). Aquele turbilhão de lives e “você tem fazer alguma coisa agora!” me deixou mais agoniada do que ajudou. Me afastei, não consigo vender alguma coisa que não acredito, e no momento não tinha como “vender” que vai ficar tudo bem e bola pra frente, porque eu não acreditava nisso, não me sentia assim. Mas também não vou postar negatividade. Se nada de bom tem pra falar, não fale nada, os tempos já estão duros o suficiente para os sonhadores. Resolvi ouvir meu coração e me dar um tempo, mesmo, silenciar. Não adianta forçar uma solução.

Não foi de uma hora pra outra, mas com alguns dias senti vontade de ir pra cozinha (sim, tinha perdido até a vontade de cozinhar), preparei um almoço simples. Meu marido diz que foi a melhor refeição que fez nos últimos tempos, com um sorisso terno de agradecimento, e veio aquele calorzinho no peito, ainda sutil. Tinha uma live marcada… bora vestir a camisa e ir pra cozinha. Me fez bem, mas ainda não me sentia pronta pra voltar…

Compartilho o resultado da live com uma amiga, que me retorna também com um doce, que amo! Uma troca de alentos. Comi metade da vasilha sem pestanejar e com satisfação. Foi como um abraço…

Mais alguns dias, resolvo fazer um bolo e umas panquecas com as bananas que estão em tempo de morrer na fruteira. Envio à outra amiga, é seu aniversário. Ficará isolada em casa, sem bolo? Impensável! Se tem algo que levo muito a sério é aniversário. E lá vai o bolo de banana para tentar amenizar um pouco a passagem do seu ano longe dos seus. Ela agradece profundamente: “foi como um abraço”! E o calor no peito aumenta.

Começo a perceber que ainda tenho um “controle” que posso me apegar nesse momento, a cozinha. Lá dentro sei que misturando farinha, ovos, açúcar e manteiga vai dar bolo, ou uma torta. É uma certeza, é bom ter essa certeza. E posso enviar um pedaço de “seja o que for” a outra pessoa e dividir esse momento, me conectar com ela, é como um abraço…

Vejo os restaurantes de amigos queridos se mantendo com o delivery, confeiteiras se unindo para continuar levando doçuras às pessoas. Nesses dias vi, como nunca, o poder de um alimento. “Comida é cultura”, “comida é arte”, “cozinhar é revolucionário”, é sim, mas mais que isso “cozinhar é (realmente) uma forma de amar”. Receber o alimento de alguém nesse momento tem uma conotação muito mais forte, não é sobre nutrir somente, é sobre trazer um pouco de paz.

Quanto vale um abraço? Não sei… mas é certo que um pedaço de bolo, uma massa caseira, um pão feito pelo seu vizinho, uma panela de brigadeiro, um arroz caldoso entregue na sua casa, podem valer tanto quanto…

Foi isso que me fez escolher essa profissão, a emoção que um alimento (no meu caso, um doce) pode trazer. As memórias que pode construir, o conforto.

Lembrar disso me deu paz, vem me trazendo de volta. Mesmo no turbilhão sem controle do futuro, me agarro à certeza que vou continuar nesse meio, de uma forma ou de outra.

“Mari, estou de sobreaviso no hospital aqui em BH, sozinha. Pedi um delivery do restaurante da sua amiga. Veio tão delicioso que foi quase um abraço… até diminuiu um pouco da tensão do plantão.

Sua profissão é foda, digo apenas isso…”

(Mensagem de uma amiga médica de plantão durante a quarentena, longe do filho que acaba de completar 1 ano de idade, e que está isolado com os avós em outra casa por segurança.)

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* Mariana Correa é Chef Pâtissière formada no Cordon Bleu de Paris, proprietária da La Parisserie em BH, e escreve mensalmente para o Territórios Gastronômicos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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