O Mundo na Ponta da Língua

Acompanhe mais uma divertida e gostosa coluna da nossa colaboradora Marina Simião.

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O mundo na ponta da língua

Por: Marina Simião*

Querido diário (cá estou eu novamente!),

Continuamos em isolamento e continuo aqui abusando da minha criatividade para ativar lembranças, criar bons momentos e seguir um dia de cada vez. Isso tudo vai passar e em breve voltaremos à uma normalidade, mesmo que ainda não saibamos como ela será. Só tenho certeza que todos nós podemos sair melhores disso tudo, com certeza de cabeça mais aberta, mente mais leve e o coração transbordará ainda mais.

Uma das coisas que mais sinto falta nestes dias é poder viajar, ou pelo menos, poder planejar quando fazê-lo. Gosto do ritual de escolher um lugar, procurar informações, conversar com quem já foi, com quem tem vontade de ir, olhar fotos, pesquisar os aromas, os sons, pra depois conferir tudo pessoalmente. Uma coisa que não pode faltar é procurar saber mais da gastronomia do lugar. Desde os restaurantes estrelados, que normalmente só ficam na pesquisa, passando pelos mercados, pelas lojinhas escondidas, pelos pratos tradicionais, pelos costumes. A gastronomia passou a fazer parte das minhas escolhas de viagem depois que deixei de ser boba e passei a querer provar de tudo.

Durante uma boa parte da minha vida fui muito chata para comer. Brincava que não gostava de “nada que nadava” e ainda justificava isso porque meu nome remete ao mar, às águas, mera desculpa esfarrapada. E com isso foram várias experiências gastronômicas perdidas. Até que um dia a gente acorda né, nem que seja depois de 15 dias em uma praia onde a única opção além de peixe era salgado. É Diário, quando você é a única que não come moqueca, com a melhor boca do mundo diga-se de passagem, tem alguma coisa errada. Vi o tanto que eu estava perdendo em experiência, em variação de paladar e em possibilidades de interação social. A partir desta viagem decidi que eu provaria tudo, e assim venho fazendo. Isso já me custou algumas experiências estranhas, boca inchada de pimenta, cometer o pecado da gula e por aí vamos.

Mas, uma coisa que passei a perceber sabe Diário, e sentir, é a capacidade que a comida tem de nos transportar. A capacidade de nos permitir conexões além do tempo e da geografia. Dar a volta ao mundo pode ser mais rápido e bem saboroso se nos permitirmos. Então, que tal viajar pelo paladar e ter o mundo inteiro passeando pela boca?

“pan con tomate y café con leche”

Estou mais saudosa estes tempos então me deu vontade de rever alguns lugares… vontade de tomar café da manhã em Madrid, comendo “pan con tomate y café con leche”, a boca até saliva, dá pra sentir o sol e a luz da Plaza Mayor quando o dia está começando ou um “churros con chocolate” para quem está voltando “de fiesta”. Depois, acho que entraria no metrô e sairia na estação Schonbrünn em Viena. Andaria até o castelo para dar um “oi” pra Sissi e depois pararia em um restaurante pequeno que tem lá perto, que faz a própria cerveja, e comeria um Schintzel com salada de batata. Como todas as vezes, assustaria com o tamanho do bife e o tanto que ele vem inflado. Sobremesa: apfelstrudel ou sacher torte? Nenhum dos dois.

Churros com Café
Apfelstrudel

A sobremesa me levaria direto pra São Bartolomeu, pra roubar um pedacinho, ou não, de goiabada, no gosto, aquela imagem de casinhas coloniais e cheiro de terra batida. E neste caso, poderia romper a lei da física e estar em dois lugares ao mesmo tempo, afinal de contas, goiabada casa bem com queijo canastra. Aquele queijo que quando você morde tem a impressão que se abrir os olhos verá a Cachoeira Casca D’Anta e sentirá a água respingar, geladinha pra refrescar depois da trilha.

O cair da tarde pede aquele pôr-do-sol em Ipanema e na volta, depois dos aplausos claro, uma paradinha pra um chopp no calçadão pra dar aquele respiro antes do cair da noite que me levaria à um samba na Lapa. A vida noturna pediria pubs ingleses e suas cervejas, ou vinícolas mundo afora, mas uma especial atenção aos pinchos de San Sebastián é necessária com uma jarra de sangría para acompanhar.

Enfim, são muitas opções. Opções estas que vem sendo reinventadas a todo tempo, são tours gastronômicos à pé, fábricas que se adaptaram para receber visitantes, bares conceituais, restaurantes pop-ups, feiras e mercados. Que me fazer confiar piamente que, na retomada do turismo em geral, o turismo gastronômico será uma das tendências. Estamos em isolamento, sedentos por novidades, por interação, mas ao mesmo tempo, receosos em como nos portarmos daqui pra frente. A comida demanda encontro e este encontro demandará preparo, logo, o receio impactará no formato dos produtos turísticos a partir de agora. Grupos menores, serviços quase personalizados, valorização dos conhecimentos, produtos e pessoas locais, a máxima de “menos é mais” estará refletida em cada detalhe. Porém até que possamos chegar neste ponto, sugiro que brinquemos com uma pequena possível volta ao mundo gustativa. Sei que não é a mesma coisa, mas, aperitivos sempre foram a melhor forma de abrir o apetite.

*Marina Simião
Turismóloga, mestre em economia criativa, gestão cultural e desenvolvimento, atua em projetos de gastronomia, economia criativa, turismo e cultura. Criadora da Metodologia Patchwork, membro da Frente da Gastronomia Mineira, do Institute of Gastronomy, Culture, Art and Tourism e do Instituto Movimento pela Felicidade, Porém, sua melhor função é ser “Dinda” do Nando, Naná, Pedro, João, Elis, Tomás e Duda. Mora em BH, tem alma viajante e o coração espalhado pelo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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