Que saudades das feirinhas de rua

As andanças, a experiência, as sensações e a memória afetiva associadas às tradicionais feirinhas espalhadas por vários pontos da capital mineira. É sobre essa saudade imposta pelas medidas de isolamento social que o professor de Literatura Rafael Duarte reflete na coluna de hoje.

As andanças, a experiência, as sensações e a memória afetiva associadas às tradicionais feirinhas espalhadas por vários pontos da capital mineira. É sobre essa saudade imposta pelas medidas de isolamento social que o professor de Literatura Rafael Duarte reflete na coluna de hoje.

*Por Rafael Duarte
Professor de Literatura
@rafaelduarte_silva

Feira Fresca realizada em Belo Horizonte em 2019 ( Foto: reprodução Instagram)

Esse período de quarentena me tirou um dos prazeres do domingo: a visita às feirinhas. É certo que eu não sou nenhum caçador de feirinhas. Não sou daquele tipo capaz de atravessar a cidade, às 7h da manhã, pra pegar as “verduras fresquinhas” pro almoço do domingão. Eu gosto é do clima.

Eu me alimento, nesse ambiente, de observar as pernas, as roupas leves e as caras de ressaca que são desamassadas com mais um copo de cerveja. Esses lugares, pra mim, combinam com um pastel bem gorduroso com bastante molho de pimenta, devorado, sem pudor algum, largado na calçada ou em pé sob o sol quente, enquanto a fritura é contida por um sem fim de guardanapos de boteco.

Lembranças de 2019: mais uma edição da tradicional Feirinha Aproxima ( Foto: reprodução Instagram)

A Ferinha Tom Jobim é assim, eu acho. Tá certo que ela acontece aos sábados, mas o clima me parece de domingo. Hehe. Ali, naquela indecisão, entre a Avenida Carandaí, a Avenida Brasil e a Rua Ceará está uma exposição de antiguidades: artefatos, objetos, livros, raridades e inutilidades. Tudo delicioso. Na outra ponta, sem frutas e verduras, está uma mistura de Feira Hippie, com festival gastronômico de interior e um esquenta com os amigos. É lá que estão as latas de cervejas, o tropeiro no pratinho de plástico, o acarajé da Bahia mineiro, o milho cozido e as cadeiras amarelinhas. Maravilha, não?

Acarajé da Bahia “mineiro” servido em uma das feirinhas Aproxima ( Foto: reprodução Instagram)

Na Savassi – não no domingo de manhã com verduras – mas na quinta à noite e com cerveja artesanal, está a Feira Modelo. Trabalhei muitos anos em uma livraria na Rua Fernandes Tourinho e, religiosamente, corria do fim do expediente pra ir comer um pedaço de abacaxi na terceira barraca da rua Tomé de Souza, acredita? Não só pra isso, claro, mas a fruta já descascada, me atentava, mesmo que eu ficasse cheio de aftas depois. Por fim, era zarpar daquele burburinho, já depois das 21h, pro Maletta, na Rua da Bahia com a Avenida Augusto de Lima, comer uns petiscos e papear com os amigos até a madrugada acabar. Na sexta seguia uma luta na Quixote Livraria que só o cafezinho de todo dia segurava.

Acho que encasquetei com esse tal domingo de manhã. Deve ser porque sempre gostei de ir à Feira dos Produtores, no Cidade Nova. Lá sim tem frutas e legumes bem bonitos – caros, é verdade, mas bonitos. É lá, pelo que me lembro, que eu gostava de ir no domingo de manhã para observar os peixes na vitrine e não escolher nenhum. Além disso, sempre achei fofinho, apesar dos vendedores não gostarem tanto, de observar a Tarsila brincar naqueles sacos enormes de feijão com algum bonequinho, simulando uma espécie de areia movediça. Por fim, eu saía, quase sempre, com uma torta de palmito congelada – comprada em algum box de comida congelada – que esquecia no forno por horas e comia, toda lambuzada de mostarda, no começo da noite.

Pode ser a que minha memória tenha me pegado de surpresa, pode ser que eu tenha misturado os sabores, as frutas e os dias da semana, mas o cenário e as sensações eu não esqueço. Sinto saudade dessa liberdade de não fazer nada no espaço público, ainda que eu esteja fazendo de tudo. Esse tempo vai passar, eu sei. É preciso cuidado, responsabilidade comigo e com o outro. É preciso consciência e amparo político. É preciso calma. O que parece é que as feirinhas serão retomadas em breve e esse processo já se inicia pouco a pouco – vale lembrar: com o uso de máscara, distanciamento e álcool em gel. Inclusive minhas mãos nunca estiveram tão ressecadas. Diante disso eu penso: já é tempo? Eu acho que não. Faz falta? Faz, bastante.

Rafael Duarte é colaborador do Territórios Gastronômicos*

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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