A apetitosa “vitrine” da lanchonete da escola

A hora do lanche é uma das mais esperadas na escola. E dela fazem parte memórias como, por exemplo, a ida à cantina para escolher o que comer. É sobre esse momento que fez parte da vida de muitos de nós que o professor Rafael Duarte vai falar na coluna de hoje.

A hora do lanche é uma das mais esperadas na escola. E dela fazem parte memórias como, por exemplo, a ida à cantina para escolher o que comer. É sobre esse momento que fez parte da vida de muitos de nós que o professor Rafael Duarte vai falar na coluna de hoje.

*Rafael Duarte
Professor de Literatura
@rafaelduarte_silva

Na última semana recebi o comunicado do retorno às aulas presenciais. Muita gente já sabe: sou professor de literatura. O recado me deixou desestabilizado por um lado e nostálgico por outro. Desestabilizado pelo fato de que o momento, é possível provar por A + B, não é adequado pra colocar tantas vidas em risco. Na outra ponta, a da nostalgia, me lembrei da cantina da escola.

Aquela vitrine engordurada que protegia os salgados era um verdadeiro pote de ouro. Isso porque lá estaria o tesouro que mataria a minha fome, o que, obviamente, proporia uma saga homérica para alcançá-lo. E olha, devo dizer que todo dia era uma odisseia diferente, pois tendo dinheiro ou não, o desafio era proposto.

Foto: Pixabay

Primeiro passo: comprar a fichinha. Uma fila enorme, claro, e uma dúvida. “Qual o lanche do dia?” Cigarrete; coxinha; pastel frito; pastel assado; enrolado de salsicha; esfirra de frango; esfirra de carne; pão de queijo; biscoito de queijo ou cachorro quente. Não fazia a menor ideia do meu desejo até estar diante da moça do caixa: “Vai querer o quê?” Eu era tomado por uma ansiedade, um suor nas mãos, um aperto no peito parecido com as angústias que sinto pela solidão dessa quarentena, uma pressão na cabeça como é quando estou com o trabalho que devo entregar em cima do prazo e, além disso tudo, eu estava faminto e agitado por estar indo ou vindo da aula de Educação Física. Na maioria das vezes, respondia: “Tanto faz, é tudo gostoso”. Mas isso não resolvia meu problema. A dúvida apertava, os que estavam atrás de mim gritavam como quando o carro engasga logo que o semáforo abre. Eu, ali, indeciso, de supetão, quase sempre respondia: “pode ser um pão de queijo mesmo.” Saía desse obstáculo frustrado por não ter conseguido tomar a decisão antes da “hora da forca” e feliz porque iria comer um belo de um pão de queijo quentinho.

Segundo passo: pegar o lanche. Esse era um momento confuso. Todos se espremendo, fazendo força ombro a ombro, lutando por um espacinho pra colocar os pés no chão e alcançar o balcão. Uma mão ia abrindo caminho, como um facão em meio ao matagal enquanto a outra segurava a tal fichinha no alto sem deixar ninguém tomar esse bilhete premiado. Já, de longe, marcava o “meu” pão de queijo e com a boca salivando seguia obstinado em busca desse objetivo. A expressão “dá licença” nunca me pareceu tão inútil, ninguém se escutava. Eu vivia uma sensação como era a de quando alguém jogava bala “à grila” – nem sei se hoje em dia fazem isso, de toda forma, não aconselho. Por fim, saía desse aglomerado exausto, no entanto, certo de que, por hora, mataria a minha fome.

Terceiro passo: sair da aglomeração. Essa situação não traz boas lembranças, pois eu parecia, imagino, um jogador de futebol americano correndo pelo campo com a bola na mão em busca do território em que o ponto deve ser marcado. No meu caso, era “só” um pão de queijo, mas o confronto com os outros corpos era bem parecido. Em busca dos espaços vazios, eu seguia, desviando dos obstáculos, saltando as pernas em um mar revoltoso, chamando amigos e pedindo socorro na esperança de que algum grandalhão sensível ou até mesmo um disciplinário pudesse me tirar dali. Que Vinícius e Toquinho me perdoem: eu não podia me perder e, muito menos, perder meu lanche nesse turbilhão. Eu lutava e, na maioria das vezes, encontrava a calmaria.

Quarto passo: devorar a comida. Aí sim era uma delícia. Reencontrar os amigos depois do trabalho, sentar na quadra de esportes ou encostar em qualquer canto, narrar as aventuras e abocanhar aquela comida. Falar de boca cheira, contar um caso, umas besteiras, escolher o time do jogo de mais tarde e marcar a voltinha do fim do dia. Isso era vida. Minha grande preocupação era: qual o lanche de amanhã. Isso quando o atrevido do pão de queijo não caía no chão.

Quinto passo: consciência. Eu sinto uma saudade enorme dos meus alunos. Sinto falta da gritaria pelos corredores, das brincadeiras fora de hora, dos desafios, dos imprevistos, dos carinhos, das perguntas. Sinto falta de borrar o quadro branco com a minha letra feia, de receber a coordenadora no meio da minha aula pra entregar o material e atrasar o conteúdo. Sinto falta dos lanches, do pãozinho da sala dos professores, da garrafa de café interminável, da fila pra beber água, da prosa solta com a moça da cantina. Aqui, do outro lado da tela do computador, eu não tenho nada disso. Desse lado de cá até o afeto é mediado. Eu quero muito estar lá com essa garotada, eu preciso disso pra viver, mas é preciso segurança e, tenho certeza, não será um pote e álcool em gel que vai nos salvar.

Rafael Duarte é colaborador do Territórios Gastronômicos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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