O tira-gosto que quase arruinou o aniversário da minha mãe

Onde está o tira-gosto? O colunista Rafael Duarte conta, de forma divertida, que a festa de aniversário da mãe quase foi por água abaixo quando ele percebeu que havia se esquecido de que? Do tira-gosto. Mas, com muita criatividade, deu um jeitinho pra resolver a situação. Confira.

Onde está o tira-gosto? O colunista Rafael Duarte conta, de forma divertida, que a festa de aniversário da mãe quase foi por água abaixo quando ele percebeu que havia se esquecido de que? Do tira-gosto. Mas, com muita criatividade, deu um jeitinho pra resolver a situação. Confira.

*Rafael Duarte
Professor de Literatura
@rafaelduarte_silva

Na última semana foi aniversário da Dona Lúcia, minha mãe. Comemoramos, claro. Não se faz aniversário todo dia e, além disso, essa mulher merece um bolo de chocolate com Ninho e morangos, os filhos por perto, um abraço bem dado e um brinde. Também merece, obviamente, presentes e agradecimentos. Ela é uma baita mãe e um poder de mulher.

Entre mimos e afetos: o professor Rafael Duarte e a aniversariante, dona Lúcia ( Foto: divulgação)

Eu, meus irmãos e minha mãe, temos sido rigorosos com os cuidados relativos à pandemia, portanto nos reunimos, à noite, pra trocar uns afetos com cerveja. Tudo seguiu bem: abusamos do sofá, da mesinha de centro, da música um pouco mais alta, dos temas polêmicos e das fofocas de família. Nós ainda debatemos os últimos casos de corrupção, de negligência política, ressaltamos os progressos da ciência e compartilhamos as expectativas sobre a criação da vacina contra o coronavírus. Tudo bem até aí.

O detalhe que não esperava decorreu exatamente do meu esquecimento – logo eu, estudioso das narrativas de memória, esqueci o tira-gosto. Não canso de afirmar que não sou nenhum cozinheiro, apesar de ser empenhado e gostar de construir, diante da fome do fim do dia, qualquer prato “com o que tem na geladeira”. Nesse quesito posso dizer, sem certa modéstia, que minha habilidade só cresce. A questão é que eu disse que faria alguma coisinha pra acompanhar o bate-papo. Isso se deve a minha vontade de participar e interagir com o grupo. Minha ideia era fazer alguma fritura, dividir em combuquinhas e espalhar pelas mesas com algum molhinho agridoce. Na minha cabeça a cena era bem boa: todo mundo feliz, bebendo, comendo uma besteira salgada, lambendo os dedos, pedindo mais, elogiando o meu feito, todo mundo dizendo que já posso casar – não, espera, saber cozinhar nunca foi um pré-requisito pra casar, sinto muito por aqueles que viveram situação parecida. O que acontece é que isso, essa cena bonita, não aconteceu.

Quando lembrei, já no meio da noite e no meio da sala, com a Tarsila nos arrancando risos e suspiros de fofura, lembrei da tal fritura que eu deveria fazer. Putz. Meu movimento imediato foi recorrer à Air fryer. Não me julguem. Eu não tenho louça de cerâmica, não tenho panela que frita sem óleo, não tenho frigideira que pode ir ao forno, não tenho espátula de silicone colorida que não derrete, não tenho pegador de inox que não amassa, não tenho facas de aço dependuradas na parede e minha tábua não é daquela madeira bonita que sempre vejo na televisão. Verdade, não tenho nada disso, mas tenho uma Air Fryer parcelada em 12 x no cartão e ela salvou a minha noite e o aniversário da minha mãe.

Corri pra geladeira, peguei o primeiro pacote congelado, temperei com bastante sal, alho e cebola moídos, laranja e rezei pro gostinho pegar enquanto procurava um adaptador pra ligar a tal máquina que frita tudo só com vento quente. Sabe lá quem inventou uma coisa dessas, mas, olha, eu acho um espetáculo da ciência esse negócio. Só não ganha da máquina de lavar roupas. Além disso, é só colocar tudo dentro, ligar a temperatura adequada, colocar o tempo certo no timer e deixar o ar circular. Só é preciso, de tempo em tempo, dar uma balançadinha na bandeja pra fritar por igual. O único problema é que demora. Ironicamente, tempo, era uma coisa que eu não tinha naquele momento.

Tive que abusar dos casos da Tarsila, das situações curiosas em sala de aula, estender uma fala aqui e outra ali e pedir pra alguém contar uma piada. Isso porque não existe a menor possibilidade de eu fazer algo do tipo. A noite seguiu nessa toada: entre umas risadinhas e umas unhas roídas, antecipei algumas cervejas e aumentei a potência do congelador enquanto acompanhava o ar circular a uma velocidade que ao atritar com o alimento: fritava. Me parece meio divino, ainda mais porque eu precisava mesmo de algo do tipo. Meu alívio foi escutar o “pim” avisando o fim do tempo de preparo.

Tudo certo. Todos comeram, cantamos o parabéns, partimos o bolo e juntamos os copos. Bom, não foi como eu esperava, mas estávamos juntos, como há muito não acontecia. Foi saboroso e divertido, ainda que tenham acontecido imprevistos. Terminamos a noite com a barriga cheia, os casos em dia, as camisas amassadas, os sapatos pelos cantos e a Tarsilinha derrubada no sofá depois de tanta farra.

Parabéns, mãe, obrigado por você existir. Te amo.

Rafael Duarte é colaborador do Territórios Gastronômicos

Para não correr o risco de passar aperto na hora de receber convidados, Territórios Gastronômicos selecionou dois petiscos deliciosos e fáceis de serem preparados. Confira.

Bolinhos fritos de mandioca com carne e pimenta

Tempurá de legumes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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