Gente que alimenta gente: Castanhas de Maria

Era uma casa rosa, de varanda ampla, construída numa rua empoeirada na parte alta de Laranjal do Jari, sul do estado do Amapá. Dona Maria estava sentada à porta, me esperando para a conversa. Com ela, Seu José, o marido e parceiro de muitos castanhais.

Cheguei atrasada, depois de um almoço tardio e valioso, porque absolutamente tradicional e local: teve acari com açaí, farinha e tucupi, mas isto é assunto para outra conversa. Outra conversa sobre comida, já que o motivo para eu estar ali, agora também sentada à varanda da casa rosa, era falar – ou melhor, ouvir – sobre a castanha-do-brasil.

Maria nasceu entre castanheiras, filha de castanheiro, castanheira se fez. Seu pai extraía a castanha na região do Rio Paru, em Almeirim, no Pará, área depois transformada em Floresta Estadual, a Flota do Paru. Como descendente das comunidades tradicionais da floresta e mantenedora desta atividade, ela herdou o direito de uso dos castanhais existentes: a maioria das unidades de conservação da Amazônia é de uso coletivo e as terras não podem ser comercializadas, garantindo o direito dos povos da floresta em extrair dela seu sustento.

A coleta e a venda da castanha-do-brasil é o trabalho de uma vida inteira, mas somente agora, depois dos 60 anos, Maria e José, com quase 80, podem usufruir do fruto deste trabalho. Antigamente, ela conta, “trabalhava para o patrão, assim uma escravidão”, coletando os ouriços nos castanhais, carregando seu paneiro para longe das árvores, quebrando este duro invólucro de madeira para retirar as castanhas e lavando-as nos igarapés.

Todo resultado do trabalho duro de meses na floresta era entregue a um comerciante local, o atravessador, que financiava a coleta: ele emprestava dinheiro para o transporte e a alimentação de três ou quatro meses de trabalho nas matas e garantia os insumos para os trabalhadores. Em troca, “comprava” toda a castanha. Maria e José, reféns deste sistema, chamado na região de aviamento, não tinham condições de negociar o preço e entregavam todo o seu trabalho para o atravessador. Nada sobrava, além do cansaço.

Esta história só mudou muito recentemente, depois que Maria começou a frequentar as reuniões com as instituições que realizam, na região, a assistência técnica e a extensão rural. Assídua e participativa, acabou aprendendo que ela tinha direitos. Soube que era possível obter a DAP, Declaração de Aptidão ao Pronaf, e com ela adquirir empréstimos nos bancos públicos. Analfabeta, recebeu ajuda para apresentar projetos e obter financiamento do Pronaf, o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar, com juros especiais para os extrativistas. Aprendeu que tinha o mesmo direito e lugar do marido e que o nome dos dois estariam, de forma igualitária, em todos os documentos, desde a DAP, até a escritura da casa rosa que ela pode comprar em 2016.

Antes, sem casa, morava com a filha. Agora, depois de conhecer e acessar seus direitos, realiza toda a coleta da castanha com dinheiro financiado pelo banco: com este empréstimo, providencia todos os insumos necessários para o trabalho na mata, incluindo o longo caminho, três dias pelo rio, até lá. Contrata e paga os trabalhadores da safra, cerca de 15 homens. Pode, ainda, adquirir um veículo com tração, os barcos e os quadriciclos necessários para o transporte da castanha coletada.


(Foto: Nadiella Monteiro)

Ao fim dos três ou quatro meses vivendo em barraco improvisado no meio da floresta amazônica, Maria comercializa a castanha, vendendo para quem paga melhor. Sobra dinheiro para investir na próxima safra, cumprir suas obrigações com os bancos e dividir o lucro em partes iguais com o marido e os dois filhos.

Depois de pouco mais de uma hora de conversa, Dona Maria me acompanhou até a esquina de casa, o asfalto, onde eu pegaria a lotação de volta ao hotel onde me hospedei em Laranjal do Jari. Ela me ensinou muitas coisas sobre a castanha, os longos e duros caminhos trilhados até ela chegar à minha mesa. Mas, talvez sem saber, ela me ensinou muito mais sobre a força desta gente que alimenta gente.

Para Maria, sua castanha é livre. Para mim, Maria é livre: mulher, amazônida, grande e forte, comanda seus homens sob as imensas castanheiras. Ela tem plena consciência de seus direitos, ela sabe da sua força, ela conhece a coragem. Coletando castanhas uma vida inteira, mantém de pé a floresta que ainda sustenta a vida neste planeta e me alimenta de castanhas livres e de liberdade.

Nadiella Monteiro
Estudou Medicina Veterinária, mas logo cedo descobriu que gostava mais de gente e de planta. Trabalhando com os agricultores familiares e com a agroecologia, aprendeu que comer é ato político diário, fundamental e transformador de mundos e, por este motivo, acredita que é preciso conhecer quem nos alimenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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