O homem que inventou a bebida mais famosa do mundo

Por Jaime Camargos e Luciana Schettino*

Não poderíamos começar a falar de cachaça sem falar da bebida mais famosa do Brasil, Havana. Melhor ainda, falar do homem que inventou a Havana. Ele já não esta mais entre nós, deixou-nos em 2002. Ela, ainda carrega a fama de ser a melhor cachaça do mundo. Presentear com o rótulo Havana ou Anísio Santiago é chique. Comprá-la… bem, isso é para poucos.

As antigas garrafas da Havana são guardadas como verdadeiros tesouros. Não tem preço de mercado e alcançam valores na casa dos milhares. Odiada por uns e idolatrada por outros, a cachaça Havana/Anísio Santiago carrega ainda o carisma de seu criador.

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O rótulo Havana, que existe desde 1946 mas que teve somente em 1998 o registro da marca requerido no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual), foi retirado do mercado em 2000. Fato decorrente de uma demanda judicial da multinacional francesa Pernod Ricard, detentora da marca do rum Havana Club no Brasil desde 1994. Anísio Santiago, produtor da cobiçada cachaça, teve uma única reação ao saber do mandato judicial que lhe vetou o uso da marca: retirou o rótulo das garrafas em estoque e mandou produzir um outro, exatamente igual ao anterior, apenas colocando o seu próprio nome onde antes estava escrito Havana. E voltou serenamente para seu dia-a-dia à produzir a mais famosa cachaça do mundo. O revés só fez a bebida ainda mais desejada e rara ampliando mais ainda sua fama.

Após a morte de Anísio em 2002, seus familiares resolveram iniciar uma disputa judicial pela marca Havana.

Em 2005 ganharam o direito de usar provisoriamente o rótulo, fato que se estendeu até 2011 quando então ganharam definitivamente o direito de usá-lo. A cachaça pode ser encontrada hoje no mercado com dois nomes: Anísio Santiago, a de menor valor monetário, e Havana, a mais valorizada. Segundo Osvaldo Santiago, filho de Anísio, o fato é devido a outra disputa judicial entre a família e a gigante multinacional. A diferença de preço entre as duas poderá balizar o montante da indenização pela perda temporária do nome requerida pelos descendentes.

Em 1998, quando abrimos as portas de nossa Cachaçaria Confidências Mineiras, e como não poderia deixar de ser, fomos fazer uma visita ao homem que fazia a cachaça mais famosa do mundo. A seguir revelaremos um pouco de nossa inusitada visita ao produtor. Esperamos que os valores e crenças deixados por Anísio iluminem os herdeiros que estão conduzindo o destino de tão precioso líquido. Salve, sábio Anísio, aonde quer que você esteja!

Nossa empreitada

A localização da fazenda Havana, daí o nome da cachaça, parecia ser guardada a sete chaves em Salinas, cidadezinha localizada no Vale do Jequitinhonha, Norte de Minas. Só depois de muita conversa de mineiro, cheia de avanços e recuos, é que conseguimos um esboço do caminho.

Inúmeras foram as recomendações para tomar-se cuidado com os cães e preparar-se para o mau humor do produtor Anísio. Depois de rodarmos por boa estrada de terra, já na primeira porteira da entrada da fazenda, fechada com cadeado, uma placa avisava que curiosos não seriam bem vindos. “Uai, não viajamos mais de 640 Km para recuarmos diante de uma placa e de um cadeado.” O medo dos cães era grande, mas o objetivo de conhecer “o homem” era ainda maior. Nossos corações batiam forte. Depois de alguns minutos de hesitação resolvemos pular a porteira, fato que nos permitiu vislumbrar bem ao longe um roceiro ao qual nos dirigimos. Indagado se seríamos recebidos fomos informados que “pessoas educadas como vocês, ele receberia”. A vista não proporcionava nenhum sinal da fazenda ou do alambique. Após andarmos uns cem metros fomos “recebidos” por um grande cão em uma segunda porteira. Ele não avançou e nem latiu, somente nos acompanhou pelo forte declive de acesso ao casarão localizado em um vale.

As portas e janelas estavam fechadas com grades. Um barulho no curral, ao lado do casarão, indicou-nos a presença de gente. “O homem” e seu filho faziam a lida do gado. Grande surpresa à primeira vista. Anísio Santiago não tinha a aparência do homem que imaginávamos que iríamos encontrar. Rapidamente bati a mão em cumprimento e falei em bom tom: -“Só vim aqui conhecer o homem que faz a cachaça mais rica do mundo na região mais pobre de Minas Gerais”. Raspamos as pontas dos dedos. Anísio vestia uma camisa furada por brasa de cigarro e usava congas recortadas nas laterais, para conforto dos calos. Aparentando bem menos que seus 89 anos, convidou-nos para assentar em uma banco de madeira no próprio curral e foi logo disparando: As pessoas vem aqui e ficam contando causos achando que a gente não tem que trabalhar.

Segundos de silêncio que pareceram uma eternidade foram interrompidos pelo cacarejar de uma gorda galinha que transitava pela travessa acima de nossas cabeças. Elogios a galinha e aos bois de carga que pastavam ao
lado do curral fizeram a prosa ficar mais fácil desfazendo a aura de esquisitice que cercava o velho filósofo.

No apagar e ascender do cigarrinho de palha, Anísio assumiu o comando do tempo da prosa. Aos poucos, mineiramente, os “segredos” da vida do velho alquimista e empresário começaram ser revelados.

Anísio revelou-se um homem de forte personalidade que cuidava pessoalmente de todas as fases de produção de seu destilado. Era um ser cheio de excentricidades: nunca se deixava fotografar, não dava entrevistas e não contava o nome de seu cachorro. “Cachorro é igual gente. Se você chama pelo nome acha que é pessoa conhecida, perde a serventia”, afirmou ele. Sua atitude pode ser compreendida. A fama de sua cachaça fez com a fazenda Havana fosse invadida por assaltantes que lá nada encontraram, nem mesmo uma só garrafa da preciosa bebida. Não deixava ninguém tocar em seu caminhão Chevrolet 47, original, peça fundamental na história da cachaça que fabricava. Foi nele que o caminhoneiro Anísio transportava algumas garrafas da antiga Havana com as quais presenteava e vendia aos conhecidos em suas viagens a trabalho pela região. A mais famosa cachaça do Brasil ganhou o mundo em uma boleia de caminhão, sem nunca ter tido um anúncio publicado nos jornais e revistas. Puro marketing boca a boca, um fenômeno!

A simplicidade do produtor correspondia a simplicidade da embalagem de seu produto. Nos seus 59 anos de existência, contados até o ano de falecimento de Anísio, o rótulo da garrafa pouco mudou. O conteúdo, o sabor e a qualidade também. Exatamente por ter conseguido parar no tempo continuava excelente, mantendo a fama obtida em sucessivos concursos de degustação. Sem exagero, com esta história de parar no tempo, a sua cachaça fez a cidade de Salinas voltar à era de escambo. Com uma ínfima produção de 5.000 litros anuais, ou seja, 8.300 garrafas, o destilado servia também de moeda. Os salários dos empregados do alambique eram pagos com as garrafas de aguardente, bem como as contas que Anísio resolvia saldar em qualquer estabelecimento da cidade. Às vezes, quando tinha vontade, tomava rumo à cidade levando algumas garrafas em seu velho caminhão. Contudo, nunca deixava que uma pessoa comprasse mais de duas garrafas.

A pergunta do porque de uma produção tão limitada deixou o velho Anísio inquieto. Em resumo a resposta é “porque eu quero, pronto, e que ninguém ouse tentar me convencer o contrário”. Ele preferia produzir pouco para manter a qualidade. Ao longo de toda conversa ele repetiu várias vezes -“Não se pode ter usura. Ela acaba com o mundo”. Já mais à-vontade, Anísio demonstrou que estava gostando da visita. No apagar e ascender do mesmo cigarro de palha a conversa esticou e ele revelou alguns dos segredos de sua produção – “Deve ter paciência e capricho. Paciência para esperar que a cana (java) cresça sem ajuda de produtos químicos. Paciência para deixar que o fermento faça arder a garapa naturalmente. Paciência para fazer a separação do coração da cachaça da cabeça e da cauda. Capricho para lavar a cana e o alambique de cobre. Paciência para esperar a cachaça envelhecer adequadamente nos tonéis de bálsamo e amburana”.

O amor por aquilo que fazia permeou toda a prosa. Simples mas senhor de seu poder ele revelou receber muitas cachaças para experimentar. “Vê se vou falar mal de uma cachaça. Eu acabo com a vida dela. Não falo mal e nem bem”. Escravo da fama alcançada por sua cachaça ele acabou por revelar-nos o lado de um homem sensível, filósofo, possuidor de valores pouco comuns em nossos dias.

O cair do sol assinala o término de nossa prosa. Somos convidados a voltar sob a alegação de que fomos “as pessoas que ele mais gostou de receber nos últimos tempos”. Após pedir-nos para esperar um pouco e depois de um entra e sai dos galpões que cercavam o casarão, ele presenteou-nos com uma garrafa de Havana enrolada em um pedaço de jornal velho. Fomos saber mais tarde que tal atitude tratava-se de um fato raríssimo de acontecer. As últimas palavras que escutamos antes da despedida foi quando voltou-se para Luciana e apontou para Jaime dizendo – “este menino tem um quê de religião”. O pobre Jaime sentiu-se rico!

Ficamos extremamente felizes e gratos. O seu grande cão acompanhou-nos novamente até a primeira porteira. Nossa empreitada em Salinas estava terminada. O registro do fato ficou somente em nossas memórias e nestas
poucas linhas. Anísio odiava fotos. Que Nosso Senhor o proteja velho amigo Anísio Santiago. Salve!

*Jaime Camargos e Luciana Schettino
Cachaçaria Confidências Mineiras – Ateliê da Cachaça
Tiradentes – MG

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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