Os segredos de Dona Irlete: o tacacá enlevado

Este será o primeiro relato de uma série de histórias e estórias que vou trazer sobre a culinária amazonense, todas com o olhar inestimável de quem experimentou as iguarias regionais, pela primeira vez, dentro da própria casa e a partir do toque peculiar e único da Dona Irlete.

Por isso, nada mais justo do que trazer ao seu conhecimento, meu caro leitor, essa figura ilustre que vai nos acompanhar durante boa parte das minhas memórias.

Dona Irlete não apenas tem o sorriso fácil, mas nasceu com o talento para a cozinha, aprende e cria receitas com a mesma agilidade que conta uma piada sobre os netos (ou qualquer pessoa que ela ache interessante colocar na lista de implicância).

Quando questionada, diz ter herdado os dotes culinários da mãe e das irmãs, o que de fato nunca me convenceu, pois em todas as festas de família a expectativa pelos seus quitutes é geral e suas irmãs atravessam a cidade para se deleitarem com o tempero inigualável.

Em razão disso, criei uma teoria, em geral acertada, de que minha avó incutiu nos filhos o hábito de se reunir em torno da comida para celebrar os momentos, importantes ou rotineiros, peculiaridade esta passada de geração para geração, incluindo vizinhos, amigos próximos ou distantes.

E assim seguimos, apenas buscando uma desculpa para cozinhar algo e juntar todos os seis filhos, sete netos, quatro bisnetos, um cachorro neto e Fábio Augusto, que minha avó apresenta como seu neto postiço, causando ciúmes gratuitos.

Respeitando a tradição, resolvemos nos reunir, em uma quinta-feira de uma semana comum, sem comemoração especial, exceto o fato de estarmos na presença um do outro, para saborearmos a especialidade nortista feita com a habilidade incomparável de Irlete, o precioso Tacacá.

Como a família é naturalmente atraída por desafios, justamente com o prato dessa noite não seria diferente, afinal, o Tacacá é composto de ingredientes que, se usados de maneira incorreta, acidentalmente, podem ser fatais.

A começar pelo ingrediente responsável por abrilhantar a iguaria, o famoso Tucupi. Nada mais é do que um caldo amarelo extraído da mandioca cuja preparação deve ser precedida de 40 minutos de cozimento e 3 a 5 dias de fermentação, pois o líquido contém altos índices de ácido cianídrico, letais para o organismo humano, a depender da quantidade.

Obviamente o esforço vale a pena, o sabor inesquecível transcende a barreira do paladar, de modo que caso o Tucupi não mate pelo seu veneno, certamente matará de saudade.

Outro elemento incomum do nosso estimado Tacacá é o Jambu. Uma folhinha de aparência inofensiva, mas que quando posta na boca adormece a mucosa, em real efeito anestésico, impossível de descrever por simples linhas textuais.

A combinação desses itens com o camarão, a goma de mandioca, as folhas de chicória, as pimentas-do-reino e o toque especial das mãos de Dona Irlete configura o famoso prato típico amazonense. Que nossos vizinhos nos desculpem, mas o Tacacá do Amazonas é sem igual.


Tacacá feito pelas mãos de Dona Irlete (Foto: Juliane Maia)

No meu caso em especial, a sorte me agraciou com o talento de minha avó, pois nada se compara à sua forma de tempero. Acredito que os cientistas sofreriam tentando compreender a mágica nos bastidores de sua cozinha.

O fato é que, com os ingredientes certos, nada chega aos pés do espetáculo gastronômico que é o Tacacá amazonense e tenho orgulho de dizer que Irletinha está no topo do seleto grupo capaz de prepará-lo.

Eu vos deixo por aqui e me despeço na certeza de que iniciamos nossa conversa com água na boca e uma ponta de curiosidade, mas esperem o próximo prato, de certo não vai decepcioná-los.

Até breve!

Juliane Maia
Advogada amante de gastronomia – correspondente dos territórios amazonenses.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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