Gente que alimenta gente: Comida de vó – Biscoitos “escrevidos”

Por Nadiella Monteiro

Minha avó Maria escrevia por aquelas letras tortas, cheias de voltinhas, rococós. Escrevia, talvez, receitas, cartas para a filha distante ou bilhetes para os netos no natal. Vovó também escrevia biscoitos e era esta a nossa leitura preferida, cheirosa, crocante e gostosa. Ela os chamava biscoitos “escrevidos” e isto me soava um pouco estranho, um pouco errado: não era pra ser biscoitos escritos?

Mas vovó tinha seu próprio dicionário, seu dialeto.

Mais tarde, já adulta, pude entender que este dialeto era, também, alimentar: a importância da mandioca, sua farinha de escolha, o polvilho e os biscoitos de queijo; a fundamental presença da carne, símbolo de status e dieta completa e a tradicional galinha domingueira; a quase total ausência de folhas verdes e legumes crus; o valor do andu, da moranga, do maxixe, que ela denominava “verduras”; e, a alma da comida!, o inconfundível perfume do pequi.

Tanto seu modo peculiar de falar quanto seus hábitos alimentares nasceram, como ela, no Vale do Jequitinhonha, em Virgem da Lapa, cidadezinha de ruas de pedra, feiras de sábado, farofas de andu e serestas. Sua comida é sertaneja, forte e simples como feijão com arroz e carne com farinha. E farinha de mandioca, esta raiz merecedora de saudação.

Vovó Maria já se foi e, com ela, as palavras estranhas, o sotaque do Vale, o humor ácido e o modo de fazer e escrever biscoitos. Não aprendi a receita, não sei preparar a quitanda, mas descobri que alguém, na família, ainda faz, ainda se lembra.

Elizângela aprendeu a fazer os biscoitos “escrevidos” com tia Neide, sua sogra e nora de vovó. Ela me conta que para um quilo de fécula usa uma dúzia de ovos. Diz que é pra eu escaldar a fécula com água fervente com sal, depois de já ter jogado nela o óleo bem quente. Falou também que era pra deixar esfriar tudo isto e só depois ir colocando os ovos, amassando, vendo o ponto da massa. “Ponto nem mole, nem duro, você levanta a mão e a massa demora a cair. Se você fizer muito mole, quando você escrever, ele vai esborrachar”, ela me diz. Ensina, ainda, que para escrever no tabuleiro, usa um saco plástico com um furinho na ponta e lá se formam os tantos “és”.

Foto: Nadiella Monteiro

Confesso que fiquei confusa. Preferiria ver vovó fazendo. Me chame quando tiver pronto, tá bem? 

Das vantagens de se ter boa memória, cheiros e sabores continuam quando a receita já se perdeu. Também a visão permanece, a imagem daquele quintal de terra vermelha na beira do Rio Araçuaí, mato seco de inverno, cercas, galinhas, um forno de barro feito à mão e a moça morena, como são morenas as mulheres do Vale, Elizângela, ali, retirando tabuleiros repletos do biscoito escrevido em “é”.

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Nadiella Monteiro 
Estudou Medicina Veterinária, mas logo cedo descobriu que gostava mais de gente e de planta. Trabalhando com os agricultores familiares e com a agroecologia, aprendeu que comer é ato político diário, fundamental e transformador de mundos e, por este motivo, acredita que é preciso conhecer quem nos alimenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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