A surpreendente cadeia do café

Entenda os processos do pé até a xícara da segunda bebida mais consumida no mundo, o café. A coluna é assinada pela equipe do Coffee & Joy.

Entenda os processos do pé até a xícara da segunda bebida mais consumida no mundo, o café. A coluna é assinada pela equipe do Coffee & Joy.

Por Sérgio Miranda, Coffee & Joy*

Diversas pessoas utilizam o café como fonte de inspiração e também de energia. Não é à toa que o café é a segunda bebida mais consumida no mundo, perdendo apenas para a água. Além disso, é também a segunda commodity mais negociada, sendo o petróleo a primeira. Aqui no Brasil, se consomem anualmente mais de 20 milhões de sacas de café por ano. Entretanto, para suprir toda a demanda é preciso produzir. Por isso, o café gera 8,4 milhões de empregos e reúne 300 mil produtores espalhados por 14 estados brasileiros. Mais do que isso, o café é produzido em mais de 70 países diferentes e gera trabalho para mais de 100 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo.

Por esses e outros motivos, acreditamos ser importante conhecer os processos pelos quais a nossa bebida favorita passa até chegar à nossa mesa. O trabalho para se chegar na xícara perfeita é árduo e complexo, mas detalhamos de forma simples e informativa para te aproximar ainda mais deste universo fantástico! Vamos lá?

Plantio

O primeiro passo da produção é realizar o plantio do café. No Brasil, as duas principais espécies de café são arábica e robusta. O cafeeiro arábica é uma planta de clima tropical úmido, ou seja, o ideal para seu cultivo são locais de temperatura médias anuais na faixa de 18 a 22 graus Celsius. Temperaturas médias elevadas provocam o abortamento de flores. Regiões com precipitações anuais acima de 1200 mm ou com deficiência hídrica inferior a 150 mm são consideradas impróprias para o cultivo.

Já a espécie robusta tem como origem a bacia do Congo, na África, e possui uma maior resistência. Por exemplo, regiões com temperaturas médias entre 22 e 26 graus Celsius são consideradas aptas para o cultivo. Além disso, a bebida do café robusta é considerada inferior à bebida do cafeeiro arábica, mas os grãos do tipo robusta são bastante utilizados em café instantâneo e também em blends comercializados em gôndolas de supermercados. A quantidade de cafeína do robusta é o dobro da quantidade existente no arábica.

Dito isso, a escolha natural para quem quer produzir café que apresente qualidade e complexidade na bebida, é o cafeeiro arábica. Dentro da espécie arábica existem diversas variedades. Por exemplo: Catuaí, Catucaí, Mundo Novo, Bourbon, Amarelo, Acaiá, Rubi, Obatã, Icatú, etc. A diferença entre uma variedade e outra pode ser em relação a características vegetativas, que incluem a arquitetura do cafeeiro, vigor, resistência a pragas etc. Também são diferenças entre uma variedade e outra as características produtivas como renda, maturação e produtividade.

Uma vez escolhida a variedade é preciso adquirir a muda para se plantar no campo. A produção de mudas é feita através de frutos de lavouras sadias e produtivas. A qualidade da muda tem grande influência no pé de café, por isso há um controle rigoroso dentro dos viveiros. Por exemplo, as sementes devem ser de frutos no estádio cereja, que serão despolpados, degomados e secados à sombra. Esses cuidados tendem a gerar mudas que serão produtivas e sadias.

O Desenvolvimento do Fruto

Após o plantio, o pé de café demora por volta de 18 meses para dar a sua primeira florada. A florada indica uma produção pendente, não necessariamente todas as flores darão origem a frutos de café.

Na fase seguinte, vem o chumbinho, que já é um fruto de café que deverá se desenvolver. À medida que o chumbinho se desenvolve, ele vira um fruto verde. Os frutos verdes, ao se desenvolverem, darão origem aos frutos verde-cana. Em seguida, os frutos verde-cana se desenvolverão para dar origem a frutos cerejas maduros. É nesse estágio de maturação que o café deve ser colhido. Caso isso não aconteça, o café passará para o estádio de passa e, posteriormente, para o estádio de seco. Consequentemente, quanto mais tempo se deixa o café no pé, após ele passar do estágio de cereja, mais se perde a qualidade do fruto.

Foto: Coffee & Joy

A Colheita

Os frutos de café devem ser colhidos quando estiverem em seu estágio de cereja, ou seja, quando os frutos estão maduros. A colheita é a operação mais importante sob o ponto de vista econômico-social dentro da lavoura de café. Além disso, ela tem uma ampla participação nos custos de produção do café, uma vez que é utilizada uma quantidade grande de mão de obra. Mais do que isso, a colheita também influencia na qualidade do produto final, pois, idealmente, deseja-se que somente os frutos maduros sejam colhidos.

Foto: Coffee & Joy

A colheita pode ser feita de forma manual ou mecânica. A forma manual pode ser dividida nos seguintes tópicos:

Derriça no chão:

Nesse processo, os chamados “panhadores” retiram todos os frutos do cafeeiro, galho por galho. Os frutos caem diretamente no chão e são colhidos em diferentes estágios de maturação. Esse processo é o menos recomendável, pois a bebida e o aspecto do café são prejudicados quando os frutos entram em contato direto com o chão.

Derriça no pano:

Esse processo é bastante semelhante ao anterior. A diferença principal se dá na colocação de um pano para que o café não entre em contato direto com o chão. Isso tende a gerar um produto mais limpo e com maior qualidade. O café colhido dessa maneira é carinhosamente chamado de “café da roça”.

Colheita seletiva:

Neste processo, os “panhadores” de café retiram apenas os grãos de café que estão no estágio de cereja. Os frutos verdes e verde cana são deixados no pé para se desenvolverem. Ao realizar a retirada do fruto cereja, os “panhadores” colocam o fruto em um cesto ou um saco. A tendência é que os cafés colhidos dessa forma sejam de altíssima qualidade.

Dentre as colheitas manuais, a que menos gera impurezas no café ( pedra, pau, cascas) é a colheita seletiva (0% de impureza). Já o café derriçado no chão apresenta um percentual de 50% de impurezas. Por fim, o café derriçado no pano apresenta 5% de impureza.

Outra maneira de se realizar a colheita do café é através da utilização máquinas. Esse tipo de colheita foi introduzido no Brasil por volta da década de 1970. Nos últimos anos, devido à dificuldade e ao alto custo da mão de obra para se realizar a colheita manual, a colheita mecânica tem crescido no Brasil. Em fazendas que possuem o terreno plano, a colheita mecanizada é muito utilizada e auxilia na diminuição do custo de produção.

A Pós-Colheita

Após a colheita do café na lavoura é preciso realizar o processo de pós-colheita. Aqui, o café será preparado e secado para poder atingir a umidade correta para ser beneficiado. A preparação do café pode acontecer de duas maneiras: preparo por via seca ou preparo por via úmida, conforme a seguir.

Via seca:

Os cafés preparados dessa forma são chamados de “não lavados”. O café colhido pode ser submetido a tanques lavadores-separadores ou seletores. Os tanques lavadores-separadores lavam o café e separam os grãos por densidade. Ou seja, o café que secou no pé é mais leve e flutua sobre a água. Os cafés verdes e maduros são mais pesados e sedimentam, sendo conduzidos por outra abertura do lavador e, consequentemente, para outra área do terreiro para ser trabalhado de forma separada. Já os seletores são utilizados quando não há água abundante para se trabalhar. Dessa maneira, a retirada de impurezas (terra, pedras, galhos etc) é feita por peneiras. Logo em seguida, o café é submetido a uma ventilação, que separa os cafés secos (mais leves) dos maduros e verdes.

Via úmida:

Os cafés que utilizam esse método são chamados de “lavados“. O principal objetivo desse processo é a obtenção de um produto de melhor qualidade. Os cafés que passam pela via úmida têm a sua casaca (epicarpo) e a mucilagem açucarada (mesocarpo) removidas. Tais partes apresentam uma maior incidência de microorganismos que influenciam negativamente na qualidade da bebida. É desejável que esse processo seja feito com cafés cerejas. O café passa por três etapas: lavagem, despolpamento e degomagem. Primeiro, o processo de lavagem consiste em remover as impurezas e separar o café cereja, que será utilizado para o despolpamento. Segundo, na etapa de despolpalmento é removida a casca do café, deixando o grão apenas com o pergaminho (endocarpo) e mucilagem (mesocarpo). Por fim, o processo de degomagem separa a goma açucarada do café do pergaminho.

É importante ressaltar que os cafés produzidos através de via seca, com todos os cuidados necessários, também resultam em excelentes bebidas.

Foto: Coffee & Joy

Após executar o preparo do café através de via seca ou via úmida, é preciso realizar a secagem. Ambos os cafés, lavados e não lavados, precisam ser secados. A secagem pode ser feita através de meios naturais ou artificiais. Os meios naturais consistem nas seguintes opções: secagem a sombra, secagem em tabuleiro, secagem em terreiro. A secagem a sombra gerará um produto mais uniforme, resultado de um processo mais lento e que proporciona a igualação do café. Já secagem em tabuleiro evita que o café entre em contato direto com o chão, e assim, auxilia na produção de um grão de qualidade elevada. Por fim, a secagem em terreiro consiste em esparramar o café em finas camadas no terreiro. O café precisa ser revirado constantemente para evitar fermentações não desejáveis e também para proporcionar uma seca mais uniforme. Essa forma de secagem é bastante utilizada no Brasil. Já a secagem artificial utiliza secadores mecânicos que são empregados para reduzir o tempo gasto na secagem do café. Basicamente, tal equipamento é constituído de uma câmara de aquecimento, onde são depositados os grãos, uma fornalha para produção de calor e um sistema de ventilação, responsável por levar o ar quente produzido pela fornalha para a câmara onde estão depositados os grãos de café.

Beneficiamento do café

Após o café passar pelo pós-colheita e atingir a umidade desejada (entre 11% e 12%), ele está qualificado para ser beneficiado. É durante a etapa do beneficiamento que será obtido o que conhecemos como grão cru do café.

Para o nosso propósito informativo, vamos falar sobre o básico utilizado para se beneficiar o café, no qual se realiza a limpeza e a remoção da casca dos grãos.

Limpeza:

São duas etapas. Uma de retirada de impurezas (terra e pedrinhas). A outra, de retirada de pedras mais pesadas. A retirada das impurezas é feita através de uma bica de jogo, formada por um conjunto de peneiras com diferentes tipos de furos. Esses furos de tamanhos diferentes servem para separar o café das impurezas leves. Já a retirada de pedras mais pesadas é feita através do catador de pedras. Basicamente, funciona com uma corrente de ar que age soprando e faz com que o café seja separado das pedras mais pesadas, que são eliminadas através de uma abertura específica para o descarte.

Descascamento:

Após a remoção das impurezas, o café está pronto para ser descascado. É através do descascador que se remove a casca do café. Basicamente, o descascador é composto por navalhas metálicas giratórias e uma outra fixa, que são reguláveis. A casca é descartada pelo sistema de ventilação.

Unidades de benefício mais sofisticadas possuem máquinas que servem para realizar o re-beneficiamento do café. Por exemplo, a separadora densimétrica ou mesa vibratória, que separa o café de acordo com o peso. Outro exemplo é o jogo de peneiras, utilizado para separar o café de acordo com a granulometria do grão de café.

Classificação do Café

Depois de ser beneficiado, o café passa pela etapa de classificação. A classificação do café tem como objetivo possibilitar a realização de transações à distância, facilitar a obtenção de financiamentos, possibilitar transações em bolsa de valores, estabelecer preços justos de acordo com a qualidade do café, dar maior agilidade na comercialização etc. Essa etapa é muito importante, pois é pela classificação que se verifica a qualidade do trabalho executado em todas as etapas anteriores.

Antigamente, no Brasil, utilizavam-se 300 gramas para classificar o café, que deve representar fielmente o lote de café que está sendo analisado. Nos dias atuais, utilizam-se 100 gramas para realizar a classificação e multiplica-se por três a quantidade de defeitos encontrados. Isso foi feito a fim de agilizar o processo de classificação.

A classificação do café é realizada de acordo com o fim a que o produto se destina. Por exemplo, existem classificações distintas para fins informativos, para financiamento, para exportação, para aquisição do Governo Federal, para consumo interno, para certificação em Bolsa, para concurso, para cafés especiais etc.

No nosso país, utiliza-se bastante a classificação por tipo. Basicamente, essa classificação consiste em classificar o café de acordo com o número de grãos defeituosos e imperfeitos, identificados em uma quantidade de 100 gramas de café. Os defeitos podem ser de natureza intrínseca (grãos imperfeitos), que são grãos que apresentam problemas devido à aplicação imperfeita de processos agrícolas, de beneficiamento/pós-colheita ( pretos, ardidos, verdes, mal granados, quebrados, brocados, etc). Existem também os defeitos de natureza extrínseca (impurezas) que são os elementos estranhos ao café beneficiado ( cascas, paus, pedras etc).

Foto: Coffee & Joy

Análise Sensorial

A determinação da qualidade da bebida é feita através da análise sensorial clássica, que é realizada segundo o sabor e o aroma que o café apresenta na prova de xícara. Esse tipo de classificação é bastante antiga, surgiu no início do século XX e foi adotada pela Bolsa Oficial de Café e Mercadorias de Santos. Basicamente, a análise sensorial é feita por provadores que são treinados para diferenciar os cafés de acordo com seus sentidos. A classificação oficial brasileira, em ordem decrescente, tem as seguintes denominações para a bebida do café: estritamente mole, mole, apenas mole, dura, riado, rio e rio zona. Entretanto, os cafés especiais passam por uma análise sensorial mais sofisticada. Essa análise considera os seguintes atributos: xícara limpa, doçura, acidez, corpo, sabor, retrogosto, balanço e nota geral. Além disso, avaliam-se também a ausência de defeitos, a fragrância (cheiro do pó moído) e o aroma (cheiro liberado após a infusão e também na quebra da crosta).

Torra do Café

As características sensoriais e terapêuticas do café são bastante valorizadas pelo consumidor. Essas características são alteradas durante o processo de torração dos grãos, por isso a etapa de torra é uma etapa crucial para se produzir uma bebida final de alta qualidade. A torra dos grãos é um processo pirolítico (induzido pelo calor) que amplia a complexidade química do café.

O café verde não possui aroma e tem um sabor amargo desagradável. O aquecimento dos grãos da origem aos compostos responsáveis pelo aroma e sabores agradáveis do café. O café torrado possui mais de 800 espécies moleculares diferentes. Logo, é o processo de torra que propicia o sabor e o aroma do café. Sem ele, não poderíamos apreciar os elementos do café no produto final gerado após a torração.

Durante o processo de torração, o café é submetido ao aquecimento gradual de um torrador ( cilindro grande rotatório quente). Esse processo faz com que a água residual dentro de cada célula seja convertida em vapor, o que causará uma série de reações químicas complicadas entre proteínas, lipídeos e minerais contidos no interior do grão. Os amidos transformam-se em açúcar, surgem algumas espécies de ácidos e outros ácidos são eliminados. A estrutura celular básica do grão se desintegra, isso ocasiona a expansão do mesmo. Por fim, as proteínas são desmembradas transformando-se em peptídeos, que posteriormente irão se libertar através da superfície do grão sob a forma de óleos. Os óleos aromáticos são o coração da torrefação, eles são voláteis, no sentido de transportar sabor e aroma, e também são solúveis em água. Por isso, o sabor e aroma podem ser apreciados em uma xícara de café!

O ponto de torra é comumente avaliado com subsequentes retiradas de amostras durante o processo da torração, visando à observação da cor do café, de acordo com o padrão desejado e conforme o uso. A torração clara dá origem a cafés com acentuada acidez, suavidade do aroma e sabor, menor amargor. Já a média acentua o aroma e o sabor. A torração escura mascara atributos negativos da matéria prima. Por isso, a torração média, também conhecida como “americana”, é a mais utilizada, inclusive para a classificação do café segundo a torração. Esse ponto é caracterizado por coloração de achocolatada clara, já que uma torração muito intensa não permite a detecção de defeitos que o café pode conter e não permite aquilatar com eficiência o aroma e o sabor do café.

Consumindo o Café

Finalmente, após todo o trabalho realizado nas etapas anteriores, o café está pronto para ser consumido. O preparo da bebida, com a água mineral ou filtrada, na temperatura ideal e sem gosto (como o cloro), com a moagem correta para o método escolhido e com as proporções ideais, fará toda a diferença no resultado final.

Foto: Coffee & Joy

Na hora de escolher o café a ser consumido, lembre-se: preze pela qualidade, cuidado e origem dos grãos. Aventure-se nos diferentes métodos para se deliciar com as diversas sensações que um mesmo grão pode levar para você! E, se possível, moa os grãos antes do preparo para garantir a magia sensorial.

Todas as etapas descritas anteriormente precisam ser executadas com maestria para se produzir um excelente café. São diversos pontos que precisam de atenção e cuidado para não estragar o que foi feito anteriormente e nem prejudicar o que será feito posteriormente. Por exemplo, se o processo de torra não for bem executado ele deteriorará todo o trabalho feito anteriormente a essa etapa e prejudicará a qualidade final percebida na hora do consumo do café. É um trabalho árduo desenvolvido diariamente pelo produtor e posteriormente pelas demais pessoas que integram a cadeia do café, que gera um café incrível para degustarmos em nossas xícaras diárias.

São muitas histórias, trabalho de pessoas competentes e amor que esses grãos carregam em toda a sua cadeia! Bons cafés sempre!

Conteúdo originalmente postado em Coffee & Joy: A surpreendente cadeia do café

Sérgio Miranda, colaborador

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.