A comida e a palavra: a composição de uma narrativa

Compor um prato é como narrar um fato? Essa é a dúvida de um professor de Literatura que lança um olhar narrativo sobre as fotografias dos pratos. Confira na coluna de Rafael Duarte.

Compor um prato é como narrar um fato? Essa é a dúvida de um professor de Literatura que lança um olhar narrativo sobre as fotografias dos pratos. Confira na coluna de Rafael Duarte.

Rafael Duarte
@rafaelduarte_silva
Professor de Literatura*

Outro dia, rolando o feed do Instragram em um momento de tédio enquanto Tarsila, minha filha, cochilava e eu tinha acabado de lavar a louça, me deparei com uma daquelas páginas que usam uns filtros fotográficos maravilhosos pra registrar a comida. Inclusive, antes disso, eu sempre tive dúvidas de quando usar aquele filtro da seção “comida” da câmera do celular pra dar um trato nas fotos, sendo que nunca tirei uma foto de algo que cozinhei, mesmo achando essa opção muito atrativa.

Uma página em especial me chamou a atenção pelo fato de que as composições dos pratos me lembraram os modos de escrita e, consequentemente, as formas de narrar um fato. O meu olhar, é claro, é sobre o fato fictício, isso sem negar que o fato histórico também é narrativo, mas esse exercício é do domínio dos historiadores, que, ainda bem, entraram pro hall das profissões acadêmicas relevantes – queria colocar aqui aquele emoji de carinha de apaixonado com coraçõezinhos, mas não sei.

Compartilho aqui minha angústia, se assim eu posso chamar: diante desse impacto e desse embate – a cena gastronômica bem fotografada – com que sempre me deparo quando visito o @chefrogerioduarte e, antes de meter na boca aquelas garfadas de prazer, devo – no sentido de obrigação -, esperar as fotografias do @renatoalmeida daquele prato bem montado na louça de cerâmica cor de terra que eu adoro. Ao lembrar disso, junto da imagem que brotou no meu celular, comecei a pensar de forma um pouco mais profunda. Não sei se motivado pelo tédio ou pela cerveja que eu bebia.

Foto: Renato Almeida

Acompanhem comigo por favor: eu penso que compor um prato pode seguir um processo bem parecido com o mecanismo de escrever um texto. O que quero dizer é o seguinte: se quero textura em um texto eu descrevo até que o leitor encontre, no seu cenário particular, a superfície que pretendo estimular. Vejamos: a delicadeza de acariciar um gato é algo único, pois a leveza dos pelos que atritam meus dedos e acarinham minha mão, enquanto enfrento, na contramão, uma língua úmida como uma toalha de mesa molhada pelo vinho, quente como a calda de chocolate que cobre uma panqueca pela manhã e grossa como uma escama de peixe que deve ser retirada antes do seu preparo, demostraram a textura, a qual quero remeter e, peço – pelo amor de Deus – que meu leitor me acompanhe. Nesse mesmo sentido, quando, na fotografia daqueles pratos bonitos, vejo folhas rasgadas, dobradas, organizadas contrapondo grãos mais duros ou uma massa macia sob um queijo que derrete e simula uma – pela imagem – algo que estica, mas se rompe, me sinto no céu – ou no inferno.

Por outro lado, entretanto, seguindo o mesmo caminho, a crocância parece estar naquela imagem que remete ao estalo, ao atrito, a uma dureza facilmente quebrável. Simular a mordida de uma batatinha frita, de um nacho ou de um chips remete à descrição da queda de um corpo n’àgua, por exemplo. Se ressalto o som que reverbera do atrito entre o objeto e o mar e, para isso, evidencio como as águas se espalham enquanto afunda, depois de bater no espelho, tenho a intenção de revelar determinada crocância, posso assim dizer. Nesse caso, a função crocante, me parece bem parecida nos dois casos.

Seguindo esse mesmo baile da cozinha, quero sua ajuda: quando encontro um leitor ávido por uma leitura ácida, devo lançar, aos punhados, uma sátira ou um pouco de limão. Acha que posso pensar assim? Dos pratos quentes, quando se quer estimular o desejo, posso esperar uma descrição dos braços que são descobertos ao levantar a manga da blusa delicadamente e revelar, pelo olhar, o calor da carne?

Eu sigo esse caminho ao compor imagens como se compõem as obras. Eu acredito e preciso saber se estou certo: compor um prato é como criar uma narrativa? Na minha mente imaginativa e narrativa: sim! Isso porque somos dotados de narratividade. Aquela essência que faz o sujeito estar vivo e produzir sentido. Vale destacar que é por meio da construção narrativa que criamos contextos complexos e nisso pode ser incluído um sem número de símbolos.

Foto: Renato Almeida

No meio disso tudo, há algo que não tenho dúvida: cada elemento na composição de um prato é um símbolo, pois cada alimento tem significado, tem história, tem memória, tem vida. No fim das quantas, lambendo os dedos: Eu sei que um prato é criado pra ser degustado, mas…espera… na verdade, aqui não tem “mas”, pois o texto também deve ser degustado página a página, linha a linha, letra a letra, isso pode ser feito do mesmo modo como se faz a leitura de uma composição gastronômica. Acho que assim eu posso dizer, certo?

*Rafael Duarte é colaborador do
Territórios Gastronômicos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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