A comida e o encontro em torno da mesa

Você está com saudades de receber os amigos em casa e preparar um momento de afeto regado pela comida e por uma boa conversa em torno da mesa? O professor de Literatura Rafael Duarte está. E é justamente sobre isso que ele fala na coluna de hoje do Territórios Gastronômicos.

Você está com saudades de receber os amigos em casa e preparar um momento de afeto regado pela comida e por uma boa conversa em torno da mesa? O professor de Literatura Rafael Duarte está. E é justamente sobre isso que ele fala na coluna de hoje do Territórios Gastronômicos.

*Por Rafael Duarte
Professor de Literatura
@rafaelduarte_silva

Eu não preciso de muito motivo pra comer. A comida é o motivo. Inclusive, nesse tempo, sinto muita saudade das situações que cozinhar me proporciona. Reunir os amigos, marcar um encontro, juntar a família, aglomerar e comer algo. Beber algo. Isso é uma delícia que tem o sabor do prato preparado naquele momento e também para aquele momento.

Foto: Pixabay

Ontem, passei o dia lembrando da leve ansiedade que o processo de receber convidados me traz: fazer um convite, esperar a resposta, lavar a louça, ajeitar a casa e pensar em comida. Negociar o que será preparado: “O que vamos cozinhar?”. Felizmente, eu tenho a sorte de ter amigos da área da gastronomia e isso faz com que eu viva o privilégio de saborear um prato, um tira-gosto, um pãozinho com azeite e sal, da mesma forma como me delicio com um tema literário, com uma conversa sobre política ou com um debate travado na mesa de jantar, já com os pratos sujos, os guardanapos amassados e as taças pela metade. Essa é uma cena que me coloca em movimento.

Foto: Pixabay

É claro que existem deslizes nesse caminho como, por exemplo, ir ao supermercado e esquecer algum produto, o que, aliás, é algo que sempre acontece comigo. Não entendo bem por que isso ocorre. Passo, na maioria das vezes, quase uma hora pensando a lista, abrindo os armários e reparando o que será preciso para o acontecimento. Mesmo assim, no supermercado, o papelzinho com os ingredientes vai de um bolso ao outro da calça, se perde no meio do carrinho e reaparece só no carro, na volta pra casa. Nesse caso, evidentemente, alguma coisa ficou e o único recurso é mandar aquela mensagem pedindo socorro: “traz azeite”, “traz pimenta”, “vc pode trazer um pãozinho quando vier?”. É uma espécie de extensão do “ninguém solta a mão de ninguém”, pois vamos nos ajudando até diante da lista de supermercado perdida.

Em um outro ponto desse acontecimento, gosto de reparar em procedimentos como: descascar os legumes, temperar, picar o alho, sentir o cheiro da cebola na panela, aquecer o forno, ouvir o som das frituras, cortar os pães, abrir o saquinho de amendoim, organizar as cumbuquinhas, separar os pratos, colocar-se à mesa e conversar. Comer, conversar e amar. Ao contrário do que gostaria que acontecesse, nessas situações, o tempo corre, parece que se desembola como um fio de assunto que se estende por toda a casa. Os ânimos crescem, a voz ganha força, as mãos se transformam e os pratos esvaziam.

Eu quero muito que essa pandemia termine logo, imagino que todos queremos voltar à rotina e aos prazeres do encontro, da boa conversa e da troca de carinhos em torno da mesa. Quero, o quanto antes, voltar a viver os imprevistos de uma reunião entre companheiros, estar nesse lugar em que não se medem o tato e nem o passar das horas.

Por incrível que pareça, eu também sinto saudade da casa suja. Saudade de observar o chão pisado e marcado com aquela mistura de poeira, bebida e algum pouco de comida que caiu, mas foi limpo sem cuidado algum. Saudade das cadeiras fora do lugar, dos copos em cima dos livros e do cinzeiro cheio. Saudade do “cheiro de ontem” que fica no ambiente na manhã seguinte.

Bom, espero poder matar essa saudade logo. Quero que os meus queridos estejam comigo e quero poder compartilhar tudo que tenho aprendido nesse tempo. Quero falar olhando nos olhos sem a mediação de uma tela, quero escutar as vozes sem aquele ruído metálico das chamadas a distância.

Acho que mais uma coisa ainda precisa ser dita: não tenho saudade alguma de lavar a louça, até mesmo porque, em quarentena ou não, ela continua se amontoando na minha pia.

Rafael Duarte é colaborador do Territórios Gastronômicos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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