A riqueza dos quintais mineiros

Intimidade: uma palavra que diretamente me remete à atmosfera dos quintais. Assim como Minas são muitas, muitos também são os seus quintais. Esses ambientes que tanto simbolizam a nossa identidade brasileira, especialmente mineira, onde as pequenas ‘quintas’ portuguesas tomaram forma e espaço simbólico, afetivo, alimentar, nutricional, cultural, ecológico e arquitetônico, conformando as nossas relações sociais desde os tempos do Brasil Colônia e do Ciclo do Ouro nas Minas Gerais.

Veja Mais: Gente que alimenta gente: Castanhas de Maria

Encontrei em minhas andanças e perambulações nessas Minas tantos quintais, diferentes como as gentes que os habitam… Quintais de terra batida, gramados, cimentados, abundantes em árvores, frutas, flores, galinhas, hortinhas, porcos, patos, cães, riachos, fornos, mesas compridas, redes, pequenas plantações, cozinhas, antenas parabólicas, e às vezes até entulho, matos de comer que crescem em qualquer espacinho, um ‘puxadinho’ sendo erguido, fogueira, tachos de doces e farinhas, fornos, paióis, caixa de areia para as crianças, gatos preguiçosos, varais de roupa e de linguiças. Uma infinidade de roupagens, sentidos, modos de ser e fazer que não cabem numa única imagem que represente a essência mineira no tempo e no espaço.


Quintal da mestra Jeanete, em Paracatu, MG. (Foto: Carlos Roberto Oliveira)

No entanto, buscando uma ‘alma’ comum, que assume diferentes personalidades, em tão diferentes biomas nos muitos cantos desse Estado, me volto para sentimentos que o poeta das insignificâncias, Manoel de Barros, sempre nos lembra em sua obra: intimidade e atividade – coisas (ou ‘trens’) que nos unem enquanto mineiros, desde dos tempos da Colônia.

Ninguém adentra facilmente o quintal de um mineiro. Nós, povo hospitaleiro, que expressamos nosso afeto através da comida e da fartura, só abrimos a intimidade, revelada no espaço do fazer, da espontaneidade, da desordem e do serviço, para quem confiamos. Assim deixaram registrados os viajantes europeus do século XVIII e assim percebo nossos hábitos mineiros rurais e urbanos até hoje. Os portões dos quintais e as entradas das ‘áreas de serviço’ estão sempre bem fechados para os ‘de fora’, recebidos nas ‘salas de estar’ das casas e apartamentos, até que a proximidade construa suficiente confiança pra se achegar na intimidade.

E como falar em quintal sem, necessariamente, falar da cozinha? Um enquanto extensão do outro, vivendo uma relação simbiótica que orienta nossa dinâmica social e revela a identidade, a ‘receita de mineiridade’, como bem nomeou Mônica Abdala, construída e abraçada pela nossa gente. Essas relações se atualizam, ganham novos sentidos e configurações e permanecem em contextos mais ou menos urbanos. Mas esse é outro assunto, que pede um novo café e uma nova prosa para ser contado.

Letícia Cabral Aguiar
É mestre em Ciências Sociais com pesquisa em antropologia da alimentação,
trabalha com projetos socioculturais e busca construir pontes entre a fruição artística, valorização das identidades e promoção da diversidade cultural. Desde 2013 se dedica a pesquisa de projetos voltados para a cultura alimentar que busquem desenvolvimento social, cultural e econômico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Likes:
5 0
Views:
94
Article Categories:
Coluna