Diário de um isolamento: A cozinha como uma forma de se cuidar

Reflexões de uma amiga e colaboradora do Territórios Gastronômicos sobre a relação entre a quarentena e a cozinha. Marina Simião descreve como passou a entender a cozinha como uma forma de se cuidar.

Reflexões de uma amiga e colaboradora do Territórios Gastronômicos sobre a relação entre a quarentena e a cozinha. Marina Simião descreve como passou a entender a cozinha como uma forma de se cuidar.

Diário de um isolamento

Querido Diário,

(pelo menos era assim que eu iniciativa meus relatos nos antigos diários de adolescência, continuando…)

Hoje já passamos a marca dos 30 dias de isolamento social. Não vou entrar aqui nos detalhes do porque estamos passando por isso, nem mesmo discorrer sobre o que cada um de nós pode aprender ou não com isso. Acho que os tempos são bastante adversos para tentar professorar qualquer coisa à este respeito. Mas, hoje, em especial, quero falar de comida, do ato de cozinhar e da relação desenvolvida com os dois ao longo destes dias.

Sabe Diário, no começo, uma das principais coisas que pensei foi a chatice de cozinhar. Sim, eu acho uma chatice cozinhar só pra mim. Sou de família grande, sempre tivemos mesa cheia de gente, barulhenta e na movimentação da cozinha a constatação de onde deve ter saído a modalidade “revezamento” no atletismo.

Brincadeiras à parte, eu que nunca fui muito de cozinhar, gostava de fazê-lo na companhia dos amigos, da família, do namorado, para que todo o preparo fosse cercado de boa conversa, risadas, pitacos em temperos e sabores, bebericar vinho, cerveja ou suco… pra depois de uma longa espera (principal tempero utilizado por mim para garantir o sucesso da receita), vir a refeição, o degustar, o gargalhar e assim, passar mais um dia. E assim foram “almojantas” em BH, Ouro Preto, São Paulo, Rio de Janeiro, Madri, Viena e de novo em BH.

Mas aí Diário, olha que coisa louca. De repente, me vi sozinha, em um apartamento de 30m2, tendo que fazer dele escritório, casa, academia, centro de meditação, biblioteca, igreja, consultório médico, sala de reuniões, minha varandinha virou boteco, restaurante… versatilidade tá em alta por aqui.

Ficar sozinha em tempos de isolamento social, pelo menos pra mim, é conviver com uma variedade de sentimentos, emoções, informações e debates internos. Ainda não estou falando com as paredes, mas já comecei a falar com você né Diário? Acho que meu momento de falar com seres inanimados está próximo, se eles começarem a responder eu conto! (risos)

E uma coisa ficou muito clara, é preciso cuidado. Cuidado com si mesmo. Falo isso porque me vejo como uma pessoa do “cuidar”. Cuidar do outro, do entorno, sejam amigos, familiares, colegas de trabalho, e diversas relações que desenvolvemos ao longo da vida. Mas e quando a gente fica sozinho? Cuida de quem?

Cuida da gente! Sim, eu sei, a resposta é óbvia, mas pra mim, demorou um pouquinho a cair a ficha. E aí entra a comida. Alguns amigos da gastronomia, entre eles o querido Eduardo Avelar, sempre comentaram que a cozinha se pauta pelo amor. Que cozinhar é um ato de carinho. Cozinhar é cuidado. E a partir disso eu comecei então a entender o cozinhar só pra mim de outro jeito.

Agora Diário, estou impossível! Comecei até a achar um pouco mais interessante a ida ao supermercado para escolher produtos, levar uma lista do que falta e esta lista conter itens como farinha de trigo, fermento, peça de carne, coisas que normalmente eu não teria em casa, a não ser que fosse para fazer uma receita específica para um dia em especial.

A batalha com a balança sempre foi uma constante, então, para não virar um boneco de pneu de uma famosa marca, decidi não comprar coisas que gosto como sorvete, doce de laranja, doce de figo e doce de leite e segurar a onda nos carboidratos. Porém, o que aprendi a fazer com farinha de grão-de-bico acho que não aprenderia em outra situação. Sim, eu tinha quase meio quilo de farinha de grão de bico em casa e nem lembrava da existência dele.

O que mais estou gostando Diário é que, durante a semana, apesar de corrido, tenho feito refeições bem melhores e, principalmente, mais saudáveis. A geladeira nunca foi tão utilizada nesta casa e o fogão e forno entenderam que mora alguém aqui e por isso, precisa que funcionem direitinho. Agora, aos finais de semana, tenho me superado. Já fiz bolo de banana, panqueca, siiimmm com a farinha de grão de bico, hambúrguer, molhos diversos, conservas de abobrinha (receita do Tude Lobato) e berinjela, creme de abóbora, parmegiana, estrogonofe, brigadeiro (teve Páscoa né turma, um brigadeiro não faz mal), galinhada, ou pelo menos a tentativa de fazer uma galinhada, enfim, acho que neste período, aprendi a fazer mais coisa que em toda a minha vida.

Aprendi também a melhorar minha noção de quantidade das coisas, tenho verdadeiro pânico de desperdício de comida, faço compras ainda mais moderadas e estou fazendo, ou pelo menos tentando até o momento, fazer do limão uma limonada. Acho que esta tem sido a máxima nos últimos tempos. Me pego pensando nos desafios do setor de gastronomia e turismo para os próximos meses, quais oportunidades podemos enxergar no meio disso tudo.

O ato de cozinhar, que tem sido um tempo de cuidado, também é uma forma de sair do olho do furacão e tentar enxergar sob outros ângulos a crise que estamos passando. É o momento em que fico pensando em pesquisas que precisam ser feitas, dados que podem ser construídos e avaliados, alinhamento entre profissionais e instituições, compartilhamento de aprendizado e troca de experiências. Por fim, acho que a minha cabeça entra em ebulição com a mesma constância da água para o café ou para o chá, meus companheiros fiéis a cada dia. Andam saindo coisas interessantes, acho que os profissionais que trabalham diretamente comigo devem se perguntar que horas eu penso nessas coisas. Pois é, cozinhando.

Por isso Diário, te conto uma coisa, que pode soar contraditória, mas passei a entender como de fato cozinhar é uma forma de cuidar. Mesmo de maneira individual, pra mim tem sido uma maneira de encontrar entusiasmo, energia e esperança para que, quando possível, possamos voltar a cuidar uns dos outros, de pertinho.

Veja outro texto da Marina Simião: Os Encantos Gastronômicos de Gramado

Marina Simião
Turismóloga, mestre em economia criativa, gestão cultural e desenvolvimento, atua em projetos de gastronomia, economia criativa, turismo e cultura. Criadora da Metodologia Patchwork, membro da Frente da Gastronomia Mineira, do Institute of Gastronomy, Culture, Art and Tourism e do Instituto Movimento pela Felicidade, Porém, sua melhor função é ser “Dinda” do Nando, Naná, Pedro, João, Elis, Tomás e Duda. Mora em BH, tem alma viajante e o coração espalhado pelo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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