Parabéns Gonçalves! paraíso gastronômico da Mantiqueira completa 58 anos

A bucólica Gonçalves, emancipada em 1 de março de 1963 está em festa. Parabéns a todos habitantes e apaixonados por este importante e charmoso reduto da gastronomia mineira e brasileira. Veja a bela homenagem prestada pelo chef Antônio Basile à sua querida Gonçalves e conheça alguns tesouros de seus fornos e fogões.

A bucólica Gonçalves, emancipada em 1 de março de 1963 está em festa. Parabéns a todos habitantes e apaixonados por este importante e charmoso reduto da gastronomia mineira e brasileira. Veja a bela homenagem prestada pelo chef Antônio Basile à sua querida Gonçalves e conheça alguns tesouros de seus fornos e fogões.

Gonçalves MG – Mata das Araucárias Foto: Arquivo pessoal Chef Antônio Basile

PARABÉNS A VOCÊ

Por: Chef Antônio Basile*

Minas Gerais, hoje um pedacinho gigante de ti se debruça festeira sobre sua Amantikir. Hoje a festa na Mantiqueira há de ser caseira, no recanto do lar, com nossa família, pois o momento assim aconselha, mas seu aniversário nem de longe passará assim, sem um bom presente marcado por palavras de sabor. É o melhor de mim para o melhor de você, minha querida Gonçalves.

Pérola da Mantiqueira é chamada a cidade por estar no vale, incrustrada entre montanhas rochosas da serra que serpenteiam a paisagem por aqui. É Pedra Bonita, Pedra do Forno, Pedra Chanfrada, Pedra São Domingos, Pedra Barnabé e por aí vai. São tantas. É uma vastidão verde de riquezas de toda ordem e sua maior é o povo nativo daqui que traz na alma a eterna hospitalidade mineira que, de tamanho tal, arrebanhou outro povo, agora daqui também, e que vieram de outros lugares. Forasteiros para alguns, protagonistas de uma nova vida para quase todos e a vida segue no ritmo que a cidade cadencia.

Emancipada em 1963, hoje completa seus 58 anos em pleno vigor juvenil. Parabéns, Gonçalves!

A missa foi pulada e a festança do depois, na praça da matriz, com seus fogos e bingos de leitão assado, rosca e cartucho de doces por mais um ano não acontecerá, mas a oração agradecida já foi feita nas primeiras horas da manhã. Ao se levantar, antes do café ainda, mirando a tela viva que se mostra pela janela, o gonçalvense orou agradecido por sua cidade, por seu chão, pela sua família e amigos. “Gonça”, hoje não me cansarei de agradecer sua hospitalidade e parabenizar pelo dia especial porque sei que por você passarei minha vida e não lhe levarei para onde for, por isso cada dia na sua presença é um dia especial.

Para homenageá-la como merece, sem me distanciar do centro que a coluna promete, eu quero saber dos sabores de sua gente que aqui nasceu, cresceu, vive e que enriquecem a mesa. Sim, os sabores da gente da Pérola da Mantiqueira que de nada igual tem no mundo. É verdade e homenagear a cidade é homenagear sua gente dando a ela o valor merecido. Comida é tudo.

Pau à pique da Vilma dos Venâncios igual não tem. Vem do milho que ali se planta e se colhe, a broa, que agasalhada na folha da bananeira que protege a massa, assa macio na fornalha da casa de tijolos e de pessoas de bem. Melhor torresmo do que os daqui não tem, fazê-lo nem tarefa difícil é; cada casa tem seu jeito e cada jeito é o melhor de todos. Mas há preferencias e o torresmo bem gostoso é o da venda do Ditão que, aliado ao destilado da cana, parceria enamorada, amacia o gogó, seca a boca e pede o petisco com gotas de limão caipira, aquele mesmo do fundo do quintal, tão carregado que dá gosto de ver.

A Pedra Chanfrada é de subida mansa, tem vista linda e no caminho de volta, ao pé da pedra, lá está a família da roça mais gastronômica que eu conheço de Gonçalves. Dona Eni e seu Toninho Viri, patriarcas da família, apresentam sobre o grande fogão à lenha muitas delícias (muitas mesmas) preparada pelas mulheres cozinheiras da família, para lá de competentes, e de tudo que é bom, minha gente, o melhor é um tal bolinho frito de batatas. Indizível de bom.

Da Pedra Chanfrada se vislumbra a Pedra do Forno e sob seus pés está Dona Glória do Zé do Ovídeo, cujos quitutes é parte integrante do ambiente bucólico e da simpática cozinha que oferece aos comensais de passagem o gosto gostoso da vida na roça nas papilas.

Vista da Pedra do Forno – Gonçalves MG Foto: Arquivo Pessoal Chef Antônio Basile

Frango caipira? Já provei muitos e até frango com três pés (um dia contarei o causo), mas o frango caipira do bar do Correa, na divisa da cidade, meio Gonçalves, meio cidade vizinha, é daqueles que a gente come de lamber os beiços junto com o angu de fubá mimoso do moinho de pedra dali mesmo. Comidas com muito umami e o primeiro prato bem servido é somente a entrada, já que a mesa é posta com fartura para o deleite dos convivas. Roa o pé e o pescoço, a carcaça e o curanchim; frescuras à parte, tudo com as mãos.

Bons queijos também têm e como. Além do Natural especializou-se no preparo e se pode dizer que o minas frescal da Dorotéa que faz um excelente queijo, mas para os de casa ou para os privilegiados, assim como eu, a paçoca de pilão feita com carne é simplesmente D.I.V.I.N.O.

Não posso deixar de falar, não mesmo. Os suspiros da Zefa, Dona Maria Tereza, feitos em casa, às vezes, quando acumulam claras, com aquele gostinho de limão, é lembrança das mais ricas que trago. Foi quem abraçou a mim e minha família quando aqui cheguei com sua simpatia (e de sua família) e mão cheia de suspiros deliciosos. Faço suspiros,mas não como os dela. Obrigado a você.

Goiabada sem queijo é amor sem beijo. Dona Jovina, que conheci logo nos primeiros anos por estas bandas, tira do tacho doces fantásticos. Compotas e doces de corte são comuns e isso se faz em casa, mas os de Jovina sempre aguçaram o meu apetite açucarado. Ah! A ricota de Jovina é das melhores.

Não vou me esquecer dos biscoitos de polvilho feitos em muitos dos fornos caipiras espalhados em pequenos paraísos limitados por cercas. Digo que nada mais delicioso que um biscoito de polvilho saído do forno, ainda quente e aqui tem disso.

Casarão mais antigo da cidade Foto: Arquivo Pessoal Antônio Basile

Eita! Tanta coisa gostosa para escrever. Não vai caber tudo aqui, de uma vez só, então vamos amansar o ritmo,sô!

Gonçalves, meu amor, meus desejos para você nesta data querida: Que sua mesa continue farta e a oração sempre grata; que seus filhos todos nunca se esqueçam que o melhor lugar do mundo é aqui e que nunca faltem para protegê-la de tudo que não for expressão do bem e do justo. Que a riqueza provinda das mãos competentes de suas cozinheiras e cozinheiros continue a permear protegida sua história cultural. Parabéns a você!

Veja outra coluna do Chef Antônio Basile

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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