Carta ao meu fogão: leia na coluna Gastronomia com Poesia

Na coluna Gastronomia com Poesia, acompanhe mais uma pérola das divertidas “ruminanças” com o tempero do chef Antônio Basile, ao se despedir de seu velho companheiro, o fogão.

Na coluna Gastronomia com Poesia, acompanhe mais uma pérola das divertidas “ruminanças” com o tempero do chef Antônio Basile, ao se despedir de seu velho companheiro, o fogão.

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CARTA AO MEU FOGÃO

Por: Antônio Basile*

Chef Antônio Basile – Gonçalves -MG

Fogo, foguinho, fogão.

À lenha pede tempo.

À gás não pede, não.

À indução é do momento

À luz solar é solução.

Do amigo guardo o respeito

Ao amigo declaro a paixão

Vinte anos, amigo, vinte longos anos e nunca, nunca lhe agradeci ou pensei sobre a gratidão para com você, por isso, meu querido fogão (me perdoe, parceiro, por nunca lhe ter dado um nome – será se os cozinheiros batizam o seu?). De tudo lhe exigi algumas vezes, confesso, com rudez no frigir das panelas no pico dos atendimentos nos dias mais calorosos da casa.

Você bem sabe como eu sou e se há um item na cozinha que não se troca por qualquer outro, assim, do nada, é você, fogão pau prá toda obra.

Considerando modernidades tecnológicas, até me empolguei num primeiro momento, mas o chef aqui e você, meu fiel escudeiro, não se deixaram levar pelo apelo do novo, tão facilmente. Mas uma coisa é bem certa: você sabe que foi muito bem zelado e cuidado com pontualidade britânica. O dispensei por nada, por nada mesmo e arrependido pela desfeita me resta as lágrimas virtuais nestas palavras. Hoje sinto que me falta algo quando penso em você, distante por outras bandas, em outras mãos amigas, foi reformado para recuperar sua força, segue bem cuidado, mas não esquecido, isso jamais, jamais. Tenho boas lembranças dos anos passados. Você foi parceiro mesmo, guerreiro nada chique, assim como eu, que posto à minha frente, me fez chegar aonde desejei ir e ainda mais além. Quando o vi pela primeira vez na minha frente não contive o sorriso do contentamento; lindo, robusto, imponente, ganhou seu espaço, conquistou seu território no espaço mais importante da cozinha como se ali sempre fosse o seu lugar e mostrou que vinha para ficar. Sou-lhe eternamente grato pelas oportunidades que você me deu, pois todas minhas ideias culinárias, nas experiências que trabalhamos e que estavam dentre as principais coisas que fazíamos muito bem e sem falsa modéstia, algumas que até me vieram em sonho, tiveram a enorme satisfação de se materializarem sobre sua chama potente e precisa.

O agrado alimentar do futuro comensal jamais conhecerá essa ciência empírica e alquímica que norteou nossa relação amiga. E foi graças a você, meu querido fogão, que não me poupou o esforço hercúleo nas duas décadas, que o chef aqui também não deixou de lhe mostrar serviço pesado e lhe pôs para derreter, mas com grande reconhecimento da sua competência, interagimos e, sobre suas oito bocas ardentes em fogo vivo, dominamos com maestria o desafio que você me cobrava impiedosamente também, dia e noite de um mesmo dia que pareceriam um único e sem fim.

Fogão, saiba também que torço por você nessa nova empreita, mais branda e você merece o descanso, mas nunca a inércia porque você é igual a mim quando se trata do cozinhar. Compartilhamos do mesmo vício e que venham as panelas, caçarolas, frigideiras e todo o mais porque estamos a postos e prontos. Mas o importante, meu caro, é que trago aqui o reconhecimento pela sua labuta. Siga em paz, amigo, e como o tempo é inexoravelmente cruel quando se trata da vida, desejo a você a eternidade enquanto ela dure (grande Vinícius!!!!!!!).

“meu fogão que agora tem como dona a Mariana” – chef Antônio Basile- Gonçalves MG

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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