Gastronomia com poesia: todo dia é dia de índio

Veja a coluna Gastronomia com Poesia do nosso amigo e colaborador Antônio Basile, que nos afaga os sentidos com suas temperadas linhas sobre os mais diversos assuntos deste divertido e inebriante mundo das panelas, dos fornos, fogões e principalmente dos seus artistas. Confira!

Veja a coluna Gastronomia com Poesia do nosso amigo e colaborador Antônio Basile, que nos afaga os sentidos com suas temperadas linhas sobre os mais diversos assuntos deste divertido e inebriante mundo das panelas, dos fornos, fogões e principalmente dos seus artistas. Confira!

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TODO DIA É DIA DO ÍNDIO

Por: Antônio Basile*

Preparo alimentar indígena

Acordei para escrever, café tomei com pão de queijo, comi banana e mel. A Batata doce e o inhame, cozidos e ainda quentes, entraram na mesa depois com boa dose de manteiga por cima da fatia grossa dos tubérculos. Delícia matinal, abro o jornal. Que dia é hoje? É dezenove de abril. Dezenove de abril? Sim, dezenove de abril. Lembra-me algo. Paro, penso. Dia do Índio.

Pensando, passou-se uma semana. Uma longa semana e nos sete dias a pensar sobre o índio e sobre a comida indígena no Brasil de antes e de hoje. Mais do que imenso é esse universo.

Tenho a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO NO BRASIL de Luís da Câmara Cascudo de apoio para toda hora e hoje é hora de relembrar da importância indígena na formação da gastronomia brasileira como a conhecemos hoje. Dezenove de abril é Dia do Índio? Só isso? Um dia? De tudo os povos nativos desse país contribuíram para a formação da base alimentar do brasileiro, combinados com alimentos que aqui chegaram pelas mãos dos invasores. Ao conhecer, um pouco que seja, nossos alimentos de raiz estamos dando o primeiro passo para reconhecê-los e trazê-los novamente para a nossa mesa cotidiana, já que, pela falta valorização cultural do mundo indígena, os denegaram ao esquecimento progressivo. Como já sabe o leitor, sou um crítico de senso contundente e quando, enquanto comensal, sou servido de coisas processadas e distantes da nossa realidade histórica gastro-culinária penso que estamos nos fins dos tempos alimentares, assim como conhecemos. A comida nativa, não somente daqui, deve perder cada vez mais espaço. Tadinho dos índios que, na condição de ex-protagonistas, vão aos poucos perdendo espaço (e muitas vezes até a vida) para o homem branco maluco que distante das suas próprias origens não crê na vida na Terra como uma progressão de sua própria etnia, desde primórdios, e pensa equivocado que surgiu num pé de couve. Pasmem!

Pescado e pimentas, o tempero de tudo

Dos muitos alimentos nativos logo nos vem à mente a mandioca e para muita gente identificar o que realmente é daqui se limita a ela, inhames, carás e só, mas há tanto, mas tanto, que sequer vou me prontificar a categorizá-los aqui. Deixo para os estudiosos que muito já fizeram e as obras estão disponibilizadas digitalmente para todos. Vou, mesmo, é poetizar o momento, a riqueza daqueles que, apesar de violados em sua liberdade e direitos, são ainda nossos pares e, mais que isso, foram os anfitriões dos estrangeiros do passado, não do descobrimento, mas da invasão ocorrida há séculos e por algum sentimento incerto pelo desconhecido se entregaram e foram amansados, como se devessem ser. Penso que o Brasil jamais foi descoberto porque nunca esteve escondido e que aqui se habitavam os primeiros ocupantes e donos de tudo e do tudo os invasores fizeram o que quiseram, sem pedir, e sobre o índio recaiu o encalço português que de tudo aproveitaram e levaram durante séculos. Nossas riquezas nas mesas europeias fizeram e aconteceram, mas o reconhecimento foi ínfimo para não dizer nenhum.

Mais focado na atualidade, saibam que por incrível que possa parecer apenas uma chef de cozinha no Brasil, descendente do povo Terena, centro-oeste brasileiro, aparece no fantástico mundo midiático que inclui uns e excluem muitos, como sempre e pouca visibilidade nacional possui a chef da resistência. A chef de cozinha Letícia kalymaracaya faz seu papel e levanta a bandeira solitária do não esquecimento da culinária indígena. Em sua cozinha, usando produtos típicos e métodos ancestrais foca na cultura viva para resistir ao tempo que tudo apaga quando se trata de valores em desuso. Força, Terena, porque todo dia é dia do índio.

Poréu – Milho, mandioca e carne

Ainda tenho que dizer que mesmo que a culinária indígena e seus processos de preparo desapareçam ou percam sua identidade nativa, o índio enquanto povo, é meu favorito e deixo aqui meu singelo e sincero reconhecimento pela sua importância na formação da nossa gastronomia, que perdurará por muito tempo ainda e que de fato, na minha curta existência terrena, estará sempre dentre meus pratos preferidos.

Aos índios do Brasil: obrigado.

Tapiocas

*Antônio Basile é chef de cozinha e colaborador do Territórios Gastronômicos da região da Mantiqueira no Sub Território Mantiqueira/Sul Suíça

EA/TG – MANTIQUEIRA/SUL SUÍÇA

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.