Expedição gastronômica ao Território da Mantiqueira – Parte II

Na segunda parte de nossa expedição, nós descobrimos queijos e azeites produzidos na região e fizemos um passeio pelo Parque das Águas.

Por Eduardo Avelar

Dando sequência a série de matérias sobre o Circuito Gastronômico da Pampulha na sua edição de 10 anos, iniciamos a Expedição pelo Território da Mantiqueira para inspirar os chefs e cozinheiros na criação dos pratos para os restaurantes participantes do evento.

No primeiro dia, percorremos algumas cidades e visitamos queijeiros e produtores de azeite. Venha conosco conhecer e se deliciar com estas experiências por uma de nossas mais belas regiões do estado de Minas Gerais.

Veja Também: Circuito Gastronômico da Pampulha

Nossa aventura começou pela belíssima Caxambu, logo ao amanhecer, em um passeio pelo Parque das Águas. Fomos guiados pelo secretário municipal de Turismo Felipe Condé e pelo amigo Marcos Loerch, o Kiko, nosso novo colaborador dos Territórios Gastronômicos, que nos apresentaram as fontes de águas curativas e nos contaram histórias deste lindo parque centenário.

Parque das Águas, em Caxambu. (Foto: Nereu Jr)

Um saudável passeio por entre árvores, jardins e fontes, cujas construções metálicas importadas da Bélgica e de outros países da Europa chamavam a atenção pela beleza e pela harmonia com aquele belo cenário.

Um cenário que atrai até hoje turistas e moradores para caminhadas matinais, ginásticas e, é claro, para beber as saudáveis águas de Caxambu.

Águas magnesianas e sulfurosas foram degustadas, entre explicações dos anfitriões, e assim iniciamos nossa maratona.

Foto: Nereu Jr

Das águas aos queijos

Seguimos viagem para a vizinha Cruzília, passando em frente à famosa fábrica de queijos especiais da cidade, mas não pudemos visitá-la, infelizmente, por causa de uma senhora conhecida como “Norma”.

Mais uma vez na contramão do desenvolvimento do turismo gastronômico que defendemos para nosso Estado, os órgãos de fiscalização, amparados na opinião dessa tal de “Dona Norma”, proibiram visitas guiadas à produção.

Mais um gol contra de quem, em sua guerra insana contra bactérias e outras frágeis bandeiras, joga contra o desenvolvimento econômico e social que o turismo gastronômico pode proporcionar às comunidades e aos produtores.

Diferentemente do exemplo de países mais desenvolvidos, cujos gestores, certamente, são mais evoluídos nesses quesitos culturais e humanitários e já perceberam a importância de valorizar a produção artesanal de alimentos e os produtores, atualizando, adaptando e flexibilizando essa tal de “Dona Norma”.

Mas é até compreensível, pois a maioria dessas “Normas” foram construídas e moldadas seguindo uma Lei caduca de 1945, por implacáveis profissionais cuja sensibilidade questionável os conduz a interpretações coincidentemente sempre convenientes à suas formações acadêmicas ortodoxas.

Formações estas quase sempre patrocinadas por grandes indústrias e laboratórios, que apregoam um mundo “globalizadamente pasteurizado”.

Com Norma ou sem Norma, seguimos viagem, pois queríamos ver, conhecer e degustar os queijos finos de Cruzília…

Acompanhados por técnicos da Emater-MG, chegamos à fazenda do Produtor Sandro Antônio de Barros, na zona rural da cidade, para experimentarmos seu queijo tipo parmesão.

Grande alegria de todos ao constatarmos a qualidade dos produtos, conhecidos como Capa Preta, pela película negra que envolve esses deliciosos e tenros queijos tipo parmesão.

E você não vai acreditar, amigo: como sempre tem acontecido nessas visitas pelos cinco Territórios Gastronômicos do Estado, os causos e as histórias (nem sempre de alegria e sucesso) nos surpreenderam mais uma vez.

Questionado sobre sua história, o produtor, que é filho de gerações de produtores, trabalha com queijos há mais de trinta anos. Quanto aos queijos artesanais de leite cru, tradição da família, Sandro não os produz desde 2009.

O produtor contou ter sido desestimulado a não mais produzir queijos com leite cru, pois havia riscos à saúde humana e blá, blá, blá!!!

Aprofundando nossos questionamentos, percebemos ações de fiscais de órgãos estaduais de fiscalização da produção e do meio ambiente cuja metodologia de trabalho poderíamos classificar como um covarde abuso de poder.

Que venha logo a Lei que tramita no Congresso.

Com detalhes sórdidos de fechamento da produção e ameaças de prisão inafiançável, aplicaram multa gigantesca ao pequeno e resiliente empreendedor que, além da sua família, empregava outras quatro.

Mas este será um tema que abordaremos em breve, pois recolhemos documentos para analisarmos melhor a conduta desses cidadãos. Deixemos novamente estes fatos negativos de lado e voltemos ao assunto da expedição e as boas experiências sensoriais gustativas do grupo.

Conclusão de todos presentes à visitação: valeu a luta do Sandro, pois seus queijos tipo parmesão ganharam a admiração de todos e já fazem sucesso com uma qualidade inquestionável.

O resultado desta visita foi o aumento considerável da carga no ônibus que nos conduzia. Foram dezenas de quilos comprados pelos ávidos expedicionários.

Sandro Antônio de Barros, o produtor dos queijos Capa Preta. (Foto: Nereu Jr)

E mais queijos pra quem quer queijo…

Partimos para outra visitação na região, a caminho de Aiuruoca, e desta vez conhecemos o produtor Tuti, que nos apresentou outra joia tipo parmesão da certificação Mantiqueira, que foi avidamente degustada em duas versões: com poucos dias de cura e, também, mais curados.

Após experimentações e histórias de superação e alegria, contadas pelo feliz produtor, partimos para Aiuruoca, em busca do azeite perfeito.

Detalhes de bastidores: Fomos proibidos pela “chefe da excursão” de comprar alguns quilos, pois o tempo estava curto e teríamos pela frente um cronograma apertado. Coisas de excursões turísticas… Mas presenciamos, com silenciosa aprovação, alguns justificáveis descumprimentos desta menos ortodoxa “Dona Norma” e, a carga continuou aumentando no transporte, mesmo que clandestinamente.

Tuti, o segundo produtor de queijos tipo parmesão que conhecemos. (Foto: Nereu Jr)

O Azeite Perfeito

(Foto: Nereu Jr)

Chegamos à fazenda Caminho do Meio, Capoeira Grande, em Aiuruoca, um paraíso na Mata Atlântica reconstituída pelos proprietários, ao longo dos anos, nas encostas das montanhas. Com o plantio de árvores de espécies nativas, devidamente identificadas e integradas à olivicultura, numa ação louvável de respeito ao meio ambiente, e a montagem de viveiros para aves serem recuperadas e devolvidas à natureza numa parceria com o Ibama, deram o tom responsável e correto do trabalho que encontraríamos pela frente.

Percorremos bucólicas trilhas pela natureza até que nos deparamos com um lindo lago. Atravessamos uma ponte, contemplando os peixes, e chegamos a um refúgio maravilhoso entre as árvores, para degustações dos azeites produzidos pela Olibi.

Olibi, que representa, na língua tupi guarani, óleo da terra.

(Foto: Nereu Jr)

Mais surpresa e admiração, ainda, pela maneira extremamente profissional como fomos recebidos, com uma verdadeira aula sobre qualidade de olivas, produção, acidez, sabores, etc, pelo competente empresário paulista Nélio Weiss e sua equipe.

Degustações de azeites extra virgens com pães, queijos, uvas e ainda apreciamos produtos desconhecidos do grupo, como os azeites em pó saborizados com ervas e temperos, azeitonas em conservas naturais e azeitonas passas.

Mais compras e a carga aumentando, agora também em litros.

Então… Partiu almoço!

Não sei se ainda havia espaço físico ou apetite para uma refeição completa. Será?

Um paraíso chamado Vale do Matutu

(Foto: Nereu Jr)

Inacreditáveis são as belezas descortinadas a cada curva da sinuosa estradinha de terra que nos conduzia a mais um paraíso da natureza entre as montanhas da Mantiqueira.

Mas por hoje, paramos por aqui. Na próxima parte deste relato repleto de temperos e sabores de “quero conhecer”, reiniciaremos a caminhada gastro-etílica pela cozinha mágica da Tia Iraci, na Vila Maria, Vale do Matutu, em Aiuruoca.

Então, até breve!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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