Expedição ao Território Gastronômico da Mantiqueira Parte IV

Mais um dia de experiências

Por Eduardo Avelar

Na agradável pousada Villa Chico, amanhecemos sob uma leve bruma e um friozinho que prometia emoções na subida da serra.

Mas antes, apreciamos um delicioso café da manhã, repleto de quitandas preparadas com muito carinho pelos proprietários da casa, Neisa e Alexandre. Destacaram-se os bolos e pãezinhos caseiros da Dona Tereza e o pão de queijo do Seu Chico que, segundo ele, tem receita tradicional de família trancada a sete chaves.

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Histórias de nossas quitandas que alimentam a curiosidade de experimentar e comparar as iguarias em cada parada, em cada cozinha, em qualquer parte como álibi para nosso pecado da gula.

(Foto: Nereu Jr)
Seu Chico, o “Rei do pão de queijo de São Lourenço (Foto: Nereu Jr)

Assim, iniciamos o dia e partimos para o belíssimo e bem cuidado parque das Águas de São Lourenço, onde, acompanhados por profissionais locais, conhecemos as fontes, as histórias e degustamos as saudáveis e famosas águas minerais da cidade.

Seguimos então para uma etapa mais calórica, atravessando a praça e visitando, no calçadão em frente ao parque, a Doceria São Lourenço, onde as sacolas cheias logo cedo indicavam o apetite comprador dos integrantes da expedição.

São Lourenço é famosa por seus doces de leite e de frutas. Mesmo cedo, nas primeiras horas do dia, não nos furtamos do direito de experimentar várias opções.

Alguns produtos regionais inusitados, expostos nas lindas e chamativas prateleiras, atraíram a atenção dos cozinheiros, como as pastas de truta produzidas na região.

Doceria São Lourenço (Foto: EA)
(Foto: EA)

A truta é um dos principais produtos que determinam a Identidade Gastronômica deste Território da Mantiqueira, sendo que Minas é o principal produtor do país, e Rio de Janeiro e São Paulo complementam esta referência da região na produção deste delicioso pescado exótico de águas frias que se adaptou tão bem nas montanhas da Mantiqueira.

Deixo minhas dicas para quem passar pela Doceria São Lourenço: pasta de truta com limão siciliano, pasta de inhame com truta e várias outras com ervas e temperos especiais, que merecem uma atenção de quem aprecia um bom canapezinho para harmonizar com vinhos ou espumantes.

Doce pede queijo!

Partimos para a estação de trem da cidade, onde parte da história gastronômica da região foi escrita.

Há mais de cem anos, os trens que traziam cremes e leite da região para a cidade atraíram outra importante referência regional.

Uma fábrica de queijo cremoso criada em 1911 na vizinha cidade de Lambari por uma família de imigrantes italianos – Silvestrini, que se transferiram em 1914 para um local ao lado da estação de São Lourenço. Lá passaram a produzir os centenários e deliciosamente cremosos requeijões Cremelino.

Ana Célia, proprietária do Laticínios Miramar e seus autênticos requeijões com sabor e história. (Foto: Nereu Jr)

Produto emblemático da identidade local, o requeijão Cremelino original da caixinha de madeira deu origem a outra famosa marca com a mesma fórmula de família: o Catupiry, que surgiu de mais uma dissidência familiar e cuja produção se iniciou em São Paulo, em 1938, por um dos irmãos que se mudou para o estado vizinho.

“Importante ressaltar que hoje esta fórmula original da família, com maturação natural do requeijão, só está preservada na produção do Cremelino, pois seu primo paulista já fez alterações no processo de produção”.

Quem nos contou toda essa história em meio a degustações e compras foi Ana Célia Andrade, produtora e proprietária do Laticínios Miramar.

Ana é esposa do Alberto Andrade, cuja mãe é da família Silvestrini. Portanto, como afirma, com orgulho, “após uma história cheia de emoções, falências e outros acidentes de percurso, hoje damos continuidade à centenária tradição familiar na produção do famoso requeijão de São Lourenço”.

Enquanto os expedicionários compravam e compravam, descobri um tesouro quase extinto naquela manhã devido às sua grande procura. Resquícios do requeijão que acabara de ser produzido, mas com um pequeno detalhe: cheio de raspas carameladas, que dão um sabor inigualável à iguaria.

Em silencio para não alardear, comprei o que restou. E teve gente que sugeriu um pequeno leilão, o que certamente não ocorreu, para alegria da turma da minha casa.

Legenda: Adivinhem de que se trata? (Foto: EA)

Uma parada para o café

Como tínhamos uma visita agendada a outra produção de queijos, resolvemos dar um pequeno intervalo para um café. Mas não um café qualquer…

Visitamos o premiadíssimo Café Unique, cuja produção é na cidade vizinha de Carmo de Minas.

Como o tempo estava apertado, não fizemos a visita guiada à plantação, onde todo o processo produtivo pode ser acompanhado desde o plantio e com destaque à casa da árvore, um mirante onde se tem uma bela vista da fazenda e dos cafezais.

Fomos recebidos no Showroom Unique, em São Lourenço, pelo proprietário Helcio Junior e pelo barista premiado Gabriel. Lá, Junior nos apresentou seus produtos, deu uma aula sobre torra e Gabriel nos serviu deliciosos cafés premiados.

O Gabriel, profissional que conheci ainda no início de sua carreira, treinando seus drinks para o primeiro concurso nacional que participaria e venceria, nos ofereceu aquele cafezinho especial premiado mundialmente que nos enche de orgulho e esquenta a alma.

Barista Gabriel preparando um premiado café especial Unique. (Foto: Nereu Jr)

Mais Queijos da Mantiqueira…

Nos despedimos dos anfitriões do café e partimos para Soledade de Minas, na fazenda Nhá Chica, onde se produzem os deliciosos queijos Val Di Fiemme, com destaque aos queijos de ovelha de mofo branco, que podem ser puros ou recheados.

Iguarias que não deixam nenhuma saudade dos primos da Serra da Estrela de Portugal.

A visita foi conduzida pela Verena, filha dos proprietários Vicente Marinho e Verônica, que nos falou sobre a história, a produção e as qualidades dos queijos produzidos pela família.

Ao final, como de costume, foram oferecidas suas iguarias para serem devidamente degustadas pela tropa voraz de expedicionários.

Mais uma vez, as compras comprometeram a suspensão do pequeno ônibus que nos conduzia pelas serras da Mantiqueira.

(Foto: Nereu Jr)
Legenda: Queijo de ovelha Val di Fiemme. (Foto: Nereu Jr)

Depois desse bate bola, queijo, café e queijo, farei uma pausa nesta saborosa e calórica narrativa e contarei sobre as nossas próximas visitas nas montanhas.

Fomos à cidade de Itamonte e depois seguimos para Delfim Moreira, onde degustamos outras iguarias como marmelada, mais queijos, cerveja artesanal, azeite biodinâmico, trutas, entre tantas outras delícias.

Mas na próxima edição eu conto mais…

Saudações Gastronômicas!!!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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