AgriMinas 2019 revelou riquezas e avanços na agricultura familiar

Por Augusto Albertini*

Terminou neste domingo (12) a 13ª edição da AgriMinas, a maior feira de agricultura familiar do Brasil, que ocorreu no Expominas, em Belo Horizonte. Ao todo, cerca de 200 municípios de Minas Gerais foram representados no evento.

Foram cinco dias de feira, com diversas atrações, principalmente no campo da gastronomia. Itens de destaque da cozinha mineira, como queijos, cachaças, embutidos, cafés, quitandas, doces etc, estiveram presentes no evento, levados por alguns dos melhores produtores do Estado.

O Territórios Gastronômicos passeou por cada setor da feira e nós tivemos o prazer de conhecer trabalhos de alta qualidade e rever grandes amigos. A cada gosto e aroma que sentíamos, percebíamos a riqueza dos novos produtos e a evolução dos veteranos. Esses detalhes revelam que, embora haja uma jornada muito longa pela frente, a agricultura familiar está avançando cada vez mais.

Infelizmente não foi possível conversar com todos os produtores que estiveram presentes no evento, no entanto, pudemos conferir alguns trabalhos que certamente engrandecem a rica tradição da gastronomia mineira.

Adoçando nossa jornada

No primeiro corredor que caminhamos, encontramos uma barraca cheia de compotas de cores vibrantes e tons variados. Lá estava uma compoteira de mão cheia apresentando essas delícias que ela mesma fez. Ana Maria Martins vende 20 tipos de doce, com frutas que ela mesma colhe em sua terra, em Itaguara (MG). Variedades como marmelo em calda, jabuticaba em calda, laranja da terra, goiabada cascão, doce de leite e até mesmo de jiló.

Foto: Augusto Albertini

Ana Maria chegou a se formar em Administração, mas decidiu mudar de profissão e se empenhou em fazer doces. Ela conta com orgulho como aprendeu a fazer as compotas: “Aprendi com a minha mãe, nunca fiz um curso de gastronomia”.

Ela faz compotas que são vendidas em diversas partes do Brasil, inclusive em estabelecimentos de alta gastronomia que trabalham com produtos regionais.

Hora do cafezinho

Enquanto caminhávamos, uma barraca com aromas agradáveis e rótulos coloridos nos chamou a atenção. Começamos a identificar notas florais, carameladas, achocolatadas e cítricas, características dos cafés especiais.

Na barraca, estava presente Sebastião Silva, representante da COOPFAM, uma cooperativa de Poço Fundo (MG) que produz cafés orgânicos e sustentáveis. Ele percebeu a nossa curiosidade e prontamente se aproximou de nós e perguntou “Posso ajudar?”

Perguntamos a respeito do processo de produção dos grãos e ele, extremamente atenscioso, nos revelou os principais detalhes. A COOPFAM atende mais de 400 famílias em 14 municípios na região sul de Minas Gerais, e visa incetivar a cadeia produtiva local e fazer cultivo dos grãos de café sem precisar desmatar áreas verdes, nem poluir o solo.

Este trabalho resultou em quatro rótulos de cafés especiais, além de uma outra variedade do tipo tradicional.

Sebastião nos contou detalhes da produção da COOPFAM (Foto: Augusto Albertini)

Resgatando medicina dos ancestrais

Enquanto caminhávamos, muitas coisas nos chamavam a atenção, não sabíamos onde deveríamos parar para fazer degustações e conversar com os produtores. Eis que uma barraca bem diferente se destacou no meio da multidão.

Naquela barraca, havia uma bancada cheia de frascos e sachês e, atrás deles, estavam duas mulheres com um sotaque típico do norte de Minas Gerais, que já nos antecipava de onde vieram todos aqueles produtos. Começamos a conversar com Jesuilda do Carmo, que nos falou sobre as mil e uma utilidades disponíveis naquelas plantas.

As riquezas de Riacho dos Machados (Foto: Augusto Albertini)

As ervas eram utilizadas na composição de chás, pomadas, óleos, tinturas, xaropes e outras soluções medicinais que são elaboradas de acordo com a sabedoria ancestral. Elas são preparadas por uma cooperativa de seis mulheres que colhem plantas de dois biomas – caatinga e cerrado.

Jesuilda garante que as ervas funcionam: “Na nossa terra, ninguém vai ao médico”, afirma.

Diante de tantos tratamentos alternativos, nos restava a saber se tinha algum item gastronômico. Ela nos mostrou uma manteiga de garrafa, dois tipos de mel diferentes, feitos a partir de pólen extraído de vegetações distintas, e alguns chás que podem ser feitos em infusão ou usados em saladas.

Um exemplo é o chá multiervas, que contém arnica da chapada, mulungu, melissa calêndula, alfazema, laranjeira e alecrim de horta, e é feito para aqueles que sofrem de ansiedade.

Revendo velhos amigos

Enquanto andávamos pela feira, nos deparamos com a agradável presença dos nossos amigos da Serra Negra Doces, que produzem o pé-de-moleque mais famoso da região metropolitana de Belo Horizonte.

No balcão estava Heloísa, representante da Serra Negra e esposa do Armando Alves, que produz os doces da empresa. Ela nos recebeu com imensa simpatia e contou que o pé-de-moleque estava fazendo sucesso em mais aquele evento.

No entanto, demos falta do Armando, que precisou sair mais cedo do evento para produzir mais doces. Esperamos que a produção tenha ficado tão saborosa quanto aquela que degustamos na feira.

Sempre uma grande satisfação rever os nossos amigos da Serra Negra Doces (Foto: Augusto Albertini)

Mantendo a tradição queijeira

Após algumas horas de caminhada, decidimos descansar próximos à entrada do evento, enquanto degustávamos algumas das delícias que havíamos comprado. Depois disto, resolvemos percorrer o trajeto que já havíamos feito para verificar se não havíamos deixado passar algo que valia a pena constatar.

Quando passamos novamente pela barraca da Ana Maria, ela nos chamou e disse que queria nos mostrar uma amiga de Itaguara, e nos guiou até a barraca do Capril Santa Cecília, um importante produtor de laticínios de cabra de Minas Gerais.

Entre as degustações, havia iogurtes, doces de leite, biscoitos, queijos frescos e maturados, todos produzidos com um alto padrão de qualidade.

Não pudemos conversar com a Marli Alves, proprietária do capril, pois ela estava em Araxá, participando do Mundial de Queijo 2019. No entanto, ficamos felizes ao saber da premiação do queijo maturado da Santa Cecília, que conquistou a medalha de ouro.

Outro produtor representado na AgriMinas que também participou do mundial foi o João José de Melo, da Fazenda do Pavão, localizada na Serra do Salitre (MG). Ele conquistou a medalha de prata com o queijo Imperial Faixa Azul.

Queijo Imperial com resina escura (Foto: Augusto Albertini)

A Fazenda do Pavão mantém uma tradição de cerca de 200 anos na produção de queijos artesanais e é uma das pioneiras do segmento. Na AgriMinas, eles expuseram dois queijos maturados, que foram elaborados especialmente para a harmonização com vinhos e cervejas, além de uma variedade do tipo fresco, feito para acompanhar lanches, merendas e cafés da manhã.

As frutas do Sítio Juranda

Entre os trabalhos que tivemos grande satisfação em conhecer durante a AgriMinas, está o Sítio Juranda, um dos notáveis produtores de frutas vermelhas do Brasil.

Para a feira, o Sítio Juranda ofereceu sucos, geleias, drinks, frutas com leite condensado, frutas in natura e um pão de queijo servido com um pedaço de queijo e acompanhado de um molho de frutas vermelhas, gengibre e pimenta.

O Sítio Juranda produz amoras, mirtilos e framboesas sem nenhum aditivo químico. Eles são conservados no freezer, possibilitando que os produtores tenham frutas disponíveis durante todo ano, inclusive nos períodos em que não há colheita.

As frutas também são utilizadas como matéria-prima na produção das geleias, um dos grandes destaques de venda da empresa.

Giuliano Silva nos apresentou as delícias do Sítio Juranda (Foto: Augusto Albertini)

Sorvetes Medicinais

À medida em que íamos conversando com os produtores, o nosso trabalho ficava cada vez mais envolvente. Este sentimento atingiu o auge quando conhecemos Luciano Magalhães, responsável pela criação de um sorvete muito especial.

Luciano é dono da sorveteria Gosto do Cerrado, localizada em Montes Claros (MG), que possui em seu cardápio alguns sabores pouco convencionais, além de outros bastante originais. Entre as opções estão o maracujá de veado, castanha do pará, mangaba, murici, araçá e umbu.

Além dos sabores tradicionais da casa, a Gosto do Cerrado também conta com uma linha de sorvetes medicinais que possuem uma série de propriedades benéficas, capazes de auxiliar no tratamento de pacientes que fazem quimioterapia e na reabilitação de dependentes químicos.

Nós conversamos com o Luciano e ele nos revelou alguns detalhes bem legais sobre a história e a produção desses sorvetes. Este bate-papo rendeu uma reportagem bem legal que, em breve, nós publicaremos aqui no Territórios Gastronômicos

Outras cooperativas

O horário de encerramento se aproximava, mas ainda pudemos conferir o trabalho de cooperativas que possuem produtos regionais entre seus destaques. Uma delas é a Grande Sertão, que atua no norte de Minas Gerais, incentivando o desenvolvimento da cadeia produtiva local.

O carro-chefe da cooperativa é a polpa do coquinho azedo, que também é utilizado como matéria-prima na elaboração da cerveja e do chopp que eles comercializam. Entre os produtos expostos na feira, também se destacaram as geleias de manga, umbu e panã; óleos de pequi e buriti; arroz, feijão, cachaça, rapadura, paçoca de carne seca, etc.

Outro trabalho que se destacou na AgriMinas deste ano foi a Empório do Cerrado, que já participou do evento em outras edições.

A Empório do Cerrado é uma cooperativa que atua em cinco Estados brasileiros (Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Tocantins) e atende mais de 4 mil famílias. Este ano, a linha de produtos deles conta com novas embalagens, que agregaram enorme valor estético à marca.

O carro-chefe é a castanha de baru, que é vendida nas opções salgadas e sem sal, e também é utilizada como matéria-prima de uma rosquinha doce que eles produzem. Além disso, o pequi também é um grande destaque, utilizado na produção de molhos, cremes e polpa em conserva.

A Empório do Cerrado também conta com uma linha de diversos produtos regionais, como a farinha integral de jatobá, molho de cumari e gersal orgânico. Todos estes produtos são sem glúten, veganos e livres de agrotóxicos.

Despedida

A hora de ir embora havia chegado, nós estávamos cansados, porém satisfeitos com os rumos que a agricultura familiar está tomando. Para nós foi uma grande satisfação ver tantas riquezas gastronômicas de Minas Gerais reunidas em um só lugar.

Desejamos a todos os produtores que eles tenham bons frutos, e que possamos nos encontrar na próxima edição da AgriMinas para podermos trocar novas experiências tão fantásticas quanto a que vivemos este ano.

(Foto de Capa: Reprodução / Facebook AgriMinas)

*Augusto Albertini
Jornalista e colaborador do Territórios Gastronômicos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.